Em 2023, o Brasil registrou cerca de 20.200 mortes infantis e fetais por causas evitáveis. É um número que ainda dói, mas que precisa ser lido ao lado do que existia antes: em 1996, eram 53.100 mortes assim. Uma queda de 62% em 28 anos. 1
É um avanço construído ao longo de décadas, com políticas de atenção primária, vacinação e pré-natal.
O que os números contam
"Mortes evitáveis" é um termo técnico: são aquelas que poderiam não ter acontecido com vacinação adequada, cuidado correto na gestação e no parto, ou diagnóstico e tratamento a tempo. Não é uma acusação, é uma categoria analítica que ajuda a medir onde o sistema de saúde está funcionando e onde ainda falha. 1
Para colocar em escala: em 2023, houve cerca de 32.900 mortes evitáveis a menos do que em 1996. Não é uma estatística abstrata de "taxa por mil"; são bebês, famílias e histórias que existem porque o sistema funcionou onde antes falhava. 1
A queda de 62% em menos de três décadas é consistente com as transformações estruturais do SUS: expansão da Estratégia Saúde da Família (ESF), aumento da cobertura pré-natal, modernização das maternidades e manutenção do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Um estudo no Lancet sobre o sistema de saúde brasileiro documentava, já em 2011, que reformas conduzidas pela sociedade civil ampliaram o acesso e a qualidade da atenção primária em escala continental. 3
O ponto de inflexão mais evidente nos dados foi em 2006 e 2007, quando houve queda consecutiva de mais de 2.000 mortes por ano. A Rede Cegonha, criada em 2011 para integrar atenção pré-natal, parto humanizado e cuidado neonatal, reforçou essa trajetória. 1
A saúde materna ainda é o maior desafio
O cenário da saúde infantil e fetal melhorou muito. Na saúde materna, o quadro ainda é mais difícil.
Em 2022, a razão de mortalidade materna (RMM) no Brasil era de 57,7 mortes por 100 mil nascidos vivos, bem acima da meta de desenvolvimento sustentável da ONU, que é chegar a 30 até 2030. 2 Para efeito de comparação, países como Canadá e Alemanha registram RMMs abaixo de 10 por 100 mil. 4
A pandemia de Covid-19 piorou o quadro. Em 2021, o Brasil registrou 3.030 mortes maternas, um aumento de 74% em relação às 1.739 de 2014. Parte desse aumento se explica pela Covid-19 em gestantes vulneráveis, parte pelo colapso temporário da rede de atenção às grávidas. 2
A desigualdade racial é o dado que mais incomoda. Em 2022, mulheres negras morreram por causas maternas a uma taxa de 110,6 por 100 mil nascidos vivos, mais que o dobro da média nacional. 2 Não é coincidência, e não é genética: é acesso diferenciado ao pré-natal, às maternidades de qualidade, e ao tratamento em tempo hábil.
O que a Rede Alyne propõe
Em setembro de 2024, o governo federal lançou a Rede Alyne, uma estratégia construída sobre a estrutura da antiga Rede Cegonha. O nome é uma homenagem a Alyne Pimentel, mulher negra que morreu em 2002 por falta de atendimento durante a gravidez, tornando o Brasil o primeiro país condenado internacionalmente por morte materna como violação de direitos humanos. 2
A Rede Alyne prevê investimento de R$ 400 milhões em 2024 e R$ 1 bilhão em 2025, com metas específicas:
- Reduzir a mortalidade materna geral em 25% até 2027
- Reduzir a mortalidade entre mulheres negras em 50% até 2027
- Aumentar o valor do custeio do pré-natal, de R$ 55 para R$ 144 por gestante
Entre as ações estruturais estão a criação de centrais regulatórias obstétricas com cobertura 24 horas, a expansão do Método Canguru (contato pele a pele precoce para recém-nascidos de risco), a construção de 36 novas maternidades e 30 Centros de Parto Normal, e a integração do prontuário digital da gestante ao app Meu SUS Digital. 2
O que está funcionando estruturalmente
Nenhuma dessas quedas acontece por acaso. Três pilares sustentam o progresso histórico:
Vacinação. O PNI oferece mais de 50 imunobiológicos gratuitamente, e a cobertura infantil no início dos anos 2000 ultrapassava 95% em quase todo o Brasil. Quando a vacinação é alta, infecções que matavam crianças em décadas passadas deixam de circular com força. Doenças como o sarampo e a poliomielite, que eram causas comuns de morte e sequela infantil, passaram décadas virtualmente eliminadas. 3
Pré-natal. A expansão do número de consultas pré-natais cobertas pelo SUS é um dos fatores mais diretamente ligados à queda da mortalidade infantil evitável. O acompanhamento precoce detecta riscos como hipertensão gestacional, diabetes e anemia antes que se tornem emergências. A Rede Alyne reconhece isso ao aumentar o repasse por gestante atendida, de R$ 55 para R$ 144 por consulta. 2
Atenção primária. A Estratégia Saúde da Família, com agentes comunitários de saúde chegando às casas, funcionou como espinha dorsal do sistema. Esses profissionais identificam gestantes que não iniciaram o pré-natal, crianças com vacinas atrasadas e famílias que precisam de encaminhamento. Pesquisas documentam correlação direta entre cobertura de ESF e redução de mortalidade infantil, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. 3
Esses três pilares não são independentes: vacinação funciona melhor quando há uma unidade básica de saúde acessível; pré-natal depende de consultas regulares que a ESF facilita. A cobertura universal no SUS criou o ambiente para que os três se reforçassem mutuamente. 3
Onde ainda há caminho a percorrer
O progresso existe, mas não é distribuído de forma igual. As regiões Norte e Nordeste concentram as taxas mais altas de mortalidade materna e infantil do país, reflexo de menor densidade de maternidades de referência, maior distância entre casas e unidades básicas, e desigualdades socioeconômicas históricas. A Rede Alyne prevê investimento prioritário nos municípios com piores índices, o que é tecnicamente a abordagem certa. 2
A desigualdade racial é a lacuna que mais pesa. Quando uma mulher negra tem mais que o dobro do risco de morrer no parto ou no pós-parto, isso não é variação aleatória. É o resultado de anos de acesso reduzido ao pré-natal de qualidade, dificuldade para chegar a maternidades de referência, e da persistência de vieses no atendimento clínico. Exatamente por isso a Rede Alyne definiu uma meta separada, mais agressiva: redução de 50% na mortalidade de mulheres negras até 2027, contra 25% da meta geral. 2
Há um aviso no horizonte: recuperar o terreno perdido durante a pandemia levará anos. Em 2021, com 3.030 mortes maternas, o Brasil voltou a patamares de mais de uma década atrás. A tendência de queda gradual que existia antes de 2014 não retoma sozinha quando a emergência sanitária passa. Ela precisa de reconstrução ativa de serviços, capacitação de equipes e revisão de protocolos. 2
O que isso significa na prática
Para quem está grávida ou planeja engravidar: pré-natal precoce, com a primeira consulta ainda no primeiro trimestre, faz diferença mensurável. O SUS oferece o acompanhamento completo, incluindo os novos exames de HTLV, hepatite B e hepatite C que a Rede Alyne incorporou. A dificuldade em muitas regiões é de acesso, não de protocolo. Se houver unidade de saúde da família próxima, ela é o ponto de entrada certo. 2
Para quem tem filhos pequenos: a caderneta de vacinação continua sendo um dos investimentos de saúde de maior retorno que existem. O PNI oferece tudo gratuitamente, e cada dose no prazo é prevenção concreta. 3
Para quem quer entender o sistema: a queda de 62% nas mortes infantis evitáveis em 28 anos é uma das histórias de saúde pública mais relevantes do Brasil contemporâneo, e raramente recebe a atenção que merece. Não é perfeita, não é uniforme, mas é real e documentada. E é o tipo de progresso que só acontece quando atenção primária, vacinação e cuidado pré-natal funcionam juntos, de forma consistente, por décadas.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Para acompanhamento pré-natal ou saúde do bebê, consulte a unidade de saúde mais próxima ou o seu médico.
