Um preprint inglês com 6.340.214 pessoas encontrou efeito praticamente nulo da elegibilidade para a vacina contra herpes-zóster sobre o primeiro registro hospitalar de demência: diferença absoluta de −0,06 ponto percentual, com intervalo de confiança de 95% entre −0,40 e 0,27. Publicada em 21 de julho de 2026, a análise ainda não passou por revisão por pares. A prevenção de demência permanece uma hipótese de pesquisa3.
O desfecho inglês foi específico: códigos de demência em internações e atendimentos hospitalares. O estudo não tinha registros de atenção primária, atestados de óbito nem dados individuais de vacinação. Por isso, o resultado descreve essa base e essa forma de identificar demência. Ele diverge dos achados positivos do País de Gales e do Canadá, obtidos com outras bases e definições123.
O corte de aniversário virou experimento
Os programas britânico e canadense usaram datas exatas de nascimento para definir quem receberia oferta da vacina viva atenuada Zostavax. A regressão descontínua compara pessoas nascidas pouco antes e pouco depois da linha, grupos muito próximos em idade, mas com probabilidades diferentes de vacinação. A primeira estimativa é o efeito de ser elegível; atribuir um efeito ao recebimento da dose exige suposições adicionais, entre elas que o corte influencie a demência por meio da vacinação12.
No País de Gales, a proporção vacinada saltou de 0,01% entre quem nasceu uma semana antes do corte de 2 de setembro de 1933 para 47,2% entre quem nasceu uma semana depois. Em 282.541 adultos sem demência prévia, a elegibilidade foi associada a 1,3 ponto percentual menos diagnósticos novos em sete anos. Ao ajustar essa diferença pela adesão à vacina com uma análise de variável instrumental, os pesquisadores estimaram redução absoluta de 3,5 pontos e relativa de 20% entre as pessoas cuja vacinação foi determinada pela regra de elegibilidade1.
Esse número de 3,5 pontos é uma estimativa do modelo, não uma comparação direta entre todos os vacinados e não vacinados. O desfecho galês combinou diagnósticos na atenção primária e secundária com menções de demência em atestados de óbito. O próprio artigo limitou a aplicação do resultado à vacina viva e à faixa etária próxima dos 80 anos estudada pelo corte1.
O Canadá repetiu o sinal positivo
O estudo canadense incluiu 232.124 pessoas de Ontário e examinou dois cortes, 1º de janeiro de 1946 e 1º de janeiro de 1945. Em ambos, a elegibilidade foi associada a 2,0 pontos percentuais menos diagnósticos de demência durante 5,5 anos; os intervalos de confiança foram de 0,4 a 3,5 e de 0,2 a 3,8 pontos, respectivamente2.
Os autores também compararam as coortes elegíveis de Ontário com as mesmas coortes em províncias sem programa financiado e encontraram a mesma direção. No Canadá, o resultado ficou no nível da elegibilidade: a informação sobre cobertura vacinal veio de uma pesquisa populacional diferente da base de prontuários. Os 2,0 pontos representam o efeito da oferta definido pelo corte2.
O resultado inglês ficou perto de zero
O preprint inglês acompanhou pessoas nascidas até oito anos de cada lado do corte britânico e procurou o primeiro código hospitalar de demência durante oito anos. A mesma análise detectou a redução esperada em registros de herpes-zóster, um controle que mostra que a regra de elegibilidade teve efeito mensurável. Para demência hospitalar, porém, a estimativa permaneceu em −0,06 ponto percentual e o intervalo incluiu tanto pequeno benefício quanto pequeno dano3.
Os três trabalhos definiram demência de maneiras distintas. País de Gales e Canadá captaram diagnósticos na atenção primária; o estudo inglês dependeu da passagem pelo hospital e não sabia quem tomou a vacina. Em comparações adicionais com dados galeses, os autores do preprint não encontraram evidência de que o enquadramento hospitalar bastasse para explicar a discrepância. O resultado inglês enfraquece a hipótese de um efeito grande nesse desfecho, enquanto sua condição provisória e a definição hospitalar impedem que ele encerre a questão123.
A vacina recombinante traz outro tipo de evidência
País de Gales e Canadá estudaram a Zostavax, feita com vírus vivo atenuado. A Shingrix, registrada no Brasil, é recombinante. Uma análise de prontuários publicada na Nature Medicine comparou 103.837 pessoas em cada grupo antes e depois da mudança de vacina nos Estados Unidos. A coorte que recebeu majoritariamente Shingrix passou 17% mais tempo sem diagnóstico de demência; entre os que receberam o diagnóstico, a diferença correspondeu a 164 dias45.
Esse estudo foi observacional e os autores disseram que o desenho não demonstra causalidade. Vacinas, períodos e populações diferem, e o resultado da vacina viva não fornece uma medida automática para a recombinante. Permanecem em estudo duas explicações principais: evitar reativações do vírus varicela-zóster e produzir mudanças imunes mais amplas. Nenhum mecanismo foi estabelecido14.
Os trabalhos do País de Gales e do Canadá receberam financiamento público e filantrópico e declararam ausência de interesses concorrentes. A análise da vacina recombinante recebeu apoio do NIHR; John A. Todd declarou consultoria para a GSK e a codireção do Oxford–GSK Institute for Molecular and Computational Medicine. O artigo informa que a GSK não participou e só tomou conhecimento do estudo após a aceitação. O preprint inglês teve apoio majoritariamente público e acadêmico e declarou ausência de interesses concorrentes1234.
O que vale no Brasil
A Anvisa registrou a Shingrix para prevenir herpes-zóster em pessoas com 50 anos ou mais e, a partir dos 18, em quem tem risco aumentado para a doença. A indicação aprovada se limita à prevenção do herpes-zóster. No calendário SBIm 2026/2027, a vacina recombinante aparece em duas doses, com intervalo de dois meses, disponível nos serviços privados e ausente da oferta gratuita do PNI56.
As pesquisas atuais justificam novos ensaios e acompanhamento mais longo. Elas ainda não sustentam antecipar a vacinação, acrescentar doses ou mudar o calendário para tentar prevenir demência. A decisão de vacinar continua baseada na prevenção do herpes-zóster, na idade, no risco individual e nas orientações vigentes12356.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual.
