Após 12 semanas, a média ajustada da incapacidade caiu 10,0 pontos entre os participantes que usaram uma cinta lombar flexível e 5,3 pontos entre os que receberam apenas o cuidado usual. A diferença ajustada entre os grupos foi de 4,7 pontos no Índice de Incapacidade de Oswestry, com intervalo de confiança de 95% de 0,9 a 8,4 pontos. O resultado favoreceu a cinta, mas ficou abaixo dos 10 pontos usados pelos pesquisadores como diferença-alvo no cálculo do estudo1.
Na leitura por participante, 49 de 81 pessoas no grupo da cinta, ou 60,5%, tiveram melhora de pelo menos 30% no índice. No controle, foram 30 de 74, ou 40,5%. Esse corte individual e a diferença média de 4,7 pontos são medidas distintas1.
Como o ensaio foi feito
O estudo randomizou 168 adultos em 15 centros que recrutaram participantes, entre 17 centros participantes na França. Todos tinham dor lombar inespecífica havia um a seis meses e dor média de pelo menos 40 em uma escala de 0 a 100, em repouso ou durante atividade. Foram 86 pessoas no grupo da cinta e 82 no controle; a análise principal incluiu 155 participantes com ao menos uma avaliação depois da randomização1.
A cinta testada foi a LombaStab, da Thuasne: ajustável, flexível e sem estrutura rígida. O grupo de intervenção recebeu orientação para usá-la de quatro a oito horas por dia, durante atividades diurnas, por 12 semanas. Os dois grupos foram orientados a manter atividade física e podiam usar os analgésicos habituais. As avaliações ocorreram no início, na quarta e na 12ª semana, com registros semanais de dor pela internet12.
O ensaio foi aberto. Participantes e profissionais sabiam quem recebeu a cinta, e não houve dispositivo simulado. Isso pesa especialmente porque incapacidade e dor foram informadas pelos próprios pacientes1.
Dor e uso de medicamentos
Na 12ª semana, a redução média ajustada da dor em repouso foi 8,7 pontos maior com a cinta; durante atividade, 10,0 pontos maior. Ao longo das 12 semanas, algum medicamento para a lombalgia foi usado por 50,6% do grupo da cinta e 67,6% do controle. A diferença apareceu sobretudo nos anti-inflamatórios não esteroides: 18,5% contra 36,5%1.
Não houve diferença estatística no índice geral de qualidade de vida, no uso de opioides de nível 2, nos afastamentos do trabalho ou no número de consultas. Dor, medicamentos e esses demais resultados eram desfechos secundários; o estudo fez vários testes sem ajuste para multiplicidade, por isso eles são exploratórios1.
Dois eventos graves ocorreram, uma hérnia inguinal no grupo da cinta e uma vertigem posicional no controle. Os médicos não os atribuíram ao estudo. Seis participantes relataram efeitos leves relacionados ao dispositivo, entre desconforto, queixas musculoesqueléticas e irritação da pele1.
O sensor contou menos horas que o diário
Sensores térmicos instalados nas cintas registraram o uso de 52 dos 86 participantes desse grupo. Segundo os sensores, a média foi de 4,5 dias por semana e 3,8 horas em cada dia de uso — abaixo das quatro a oito horas orientadas no ensaio. Nos diários, as médias foram maiores: 5,5 dias por semana e 4,9 horas por dia1.
Uma análise planejada comparou participantes com maior e menor adesão. A melhora foi numericamente maior entre quem usou mais a cinta, sem diferença estatisticamente significativa1.
O que limita a conclusão
Sem cegamento e sem uma cinta simulada, o resultado reúne o possível efeito do dispositivo e o contexto de recebê-lo: expectativa, atenção e sensação de suporte podem ter influenciado as respostas. Os avaliadores também não foram formalmente cegados, e os participantes registraram dor e incapacidade durante o uso, sem uma medição separada após retirar a cinta1.
O recrutamento ficou abaixo do planejado durante a pandemia de covid-19. O acompanhamento terminou em 12 semanas, a incapacidade inicial era moderada e o estudo excluiu, entre outros grupos, pessoas com síndrome radicular ou causas específicas para a dor. Os dados não respondem quanto dura o efeito, nem permitem estender o resultado a quadros mais graves, a ciática ou a qualquer modelo de cinta12.
A Thuasne financiou o ensaio e a assistência de redação médica. Três autores receberam honorários da empresa por participação no comitê científico; dois declararam outras relações financeiras. O artigo afirma que a patrocinadora não participou do desenho, da análise, da interpretação ou da decisão de publicar1.
A diretriz da OMS trata de outro recorte
A diretriz da Organização Mundial da Saúde recomenda, de forma condicional, que cintas e suportes não façam parte do cuidado rotineiro da dor lombar crônica primária. A certeza da evidência foi classificada como muito baixa, e o documento cita possíveis danos do uso prolongado, como dependência, medo de se movimentar e descondicionamento3.
São recortes parcialmente distintos. A OMS avaliou cuidado rotineiro para dor crônica primária; o novo estudo incluiu episódios inespecíficos de um a seis meses, testou uma cinta específica e acompanhou o uso por três meses13.
O ensaio mostra uma diferença média favorável à LombaStab durante 12 semanas, mas não estabelece que 4,7 pontos sejam clinicamente importantes, não testou outros modelos e não mediu o efeito após a suspensão. Manter-se ativo fez parte do cuidado nos dois grupos12.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação profissional. Dor persistente, piora ou sintomas novos precisam ser avaliados individualmente antes do uso de cintas ou de mudanças no tratamento.
