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Wearables

Os wearables que medem o que você não pediu: privacidade de dados de saúde no pulso

Seu smartwatch coleta frequência cardíaca, sono, localização e até ciclo menstrual. Mas quem acessa essas informações? O que diz a LGPD, e o que você pode fazer para ter mais controle.

Por Dr. Lucca Ortolan Hansen· 23 de julho de 2026· Revisado por Lucca Ortolan Hansen
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Smartphone e smartwatch sobre mesa exibindo relatório semanal de saúde com gráficos e dados
Smartwatch e smartphone com dados de saúde: frequência cardíaca, sono, atividade. Mas quem além de você tem acesso a essas informações? Foto: RDNE Stock project / Pexels

Você colocou o smartwatch no pulso para acompanhar o sono, os passos e a frequência cardíaca. Talvez para monitorar o ciclo menstrual ou detectar uma irregularidade cardíaca. A intenção é cuidar de si mesmo.

O que raramente aparece no unboxing é a resposta para uma pergunta simples: quem mais tem acesso a esses dados?

Este artigo responde isso com fontes. E, no final, mostra o que você pode fazer de concreto para ter mais controle.

O que seu wearable coleta de verdade

A lista é mais longa do que parece. Um smartwatch ou anel inteligente moderno pode registrar, continuamente e em segundo plano:

  • Frequência cardíaca e variabilidade da frequência cardíaca (HRV)
  • Saturação de oxigênio no sangue (SpO2)
  • Temperatura cutânea
  • Padrões de sono (duração, estágios estimados)
  • Passos, calorias estimadas, tipo de atividade física
  • Localização via GPS (embutido no relógio ou derivado do celular)
  • Ciclo menstrual e sintomas reprodutivos (nos apps dedicados)
  • ECG sob demanda (Apple Watch, Samsung Galaxy Watch)
  • Som ambiente em alguns modelos (para detecção de ronco ou apneia)

Cada item isolado parece inócuo. Mas combinados, esses pontos formam um retrato de saúde bastante detalhado: você dorme mal, sua FC é elevada de noite, você percorreu determinada rota todo dia às 7h, e seu ciclo está irregular. Nenhuma outra tecnologia de consumo gerou esse volume de dados fisiológicos pessoais de forma tão contínua e passiva.

Para quem quiser entender como os dados de saúde feminina são coletados com ainda mais detalhe, o artigo sobre wearables e saúde feminina cobre o tema com foco nos dados reprodutivos.

Dados de saúde são "dados sensíveis" na lei brasileira

A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, a LGPD (Lei 13.709/2018), estabelece uma categoria especial chamada de dados pessoais sensíveis.1

O artigo 5º, inciso II, define essa categoria como: dados sobre origem racial ou étnica, convicção religiosa, opinião política, filiação a sindicato ou organização de caráter religioso, filosófico ou político, dados referentes à saúde ou à vida sexual, dados genéticos ou biométricos, quando vinculados a uma pessoa natural.1

Frequência cardíaca, ciclo menstrual, SpO2, sono: tudo isso entra nessa definição. São dados de saúde. São sensíveis pela lei.

O artigo 11 da LGPD diz que dados sensíveis só podem ser tratados em hipóteses restritas. A principal delas é consentimento específico e destacado para uma finalidade determinada. Fora disso, o tratamento sem consentimento é permitido apenas em situações taxativas: cumprimento de obrigação legal, políticas públicas, tutela da saúde por profissionais de saúde, prevenção à fraude e segurança do titular.1

Traduzindo: uma empresa privada que vende wearables não pode usar seus dados de frequência cardíaca para fins publicitários ou comerciais sem o seu consentimento explícito para aquela finalidade específica. O consentimento genérico de "aceitar os termos de uso" não é suficiente sob a LGPD para dados sensíveis.

Para onde vão os dados: do aparelho ao ecossistema

O caminho que seus dados percorrem depois de coletados é mais longo do que a maioria imagina.

Primeiro destino: a nuvem do fabricante. Os dados saem do dispositivo e vão para os servidores da empresa que fez o wearable. Apple Health, Google Fit, Samsung Health, Oura Cloud, Garmin Connect. Cada um com sua política de privacidade e jurisdição diferente.

Segundo destino: aplicativos de terceiros. A maioria dos ecossistemas de wearable tem APIs abertas para apps de terceiros lerem seus dados. Você concede essa permissão quando conecta um app de dieta, treino ou meditação à sua conta principal. Cada app conectado é um controlador adicional dos seus dados.

Terceiro destino: parceiros analíticos e de publicidade. Um estudo publicado no BMJ em 2019 analisou 24 aplicativos de saúde e descobriu que 79% compartilhavam dados dos usuários com terceiros.2 As 55 entidades que recebiam dados pertenciam a 46 empresas-mãe diferentes. Dois terços dessas entidades forneciam serviços de coleta e análise de dados, incluindo publicidade. Amazon e Alphabet (controladora do Google) recebiam o maior volume de transmissões únicas.2 A conclusão dos pesquisadores foi direta: o compartilhamento é rotineiro, mas longe de ser transparente.

Quarto destino potencial: data brokers. São empresas cuja atividade principal é comprar e vender dados pessoais. Dados de localização GPS, padrões de sono e indicadores de saúde têm valor de mercado. O caminho entre um SDK de analytics embutido num app de fitness e um data broker pode ser curto demais para o usuário rastrear.

Casos reais: quando a promessa e a prática divergiram

Flo Health, 2019-2021. O app Flo Period & Ovulation Tracker prometia em sua política de privacidade que os dados de saúde das usuárias não seriam compartilhados com terceiros. Uma investigação do Wall Street Journal em 2019 revelou que a empresa estava enviando dados sensíveis, incluindo informação de gravidez e status menstrual, para os serviços analíticos do Facebook e do Google, com identificadores que podiam ser vinculados a perfis de usuário.3 A FTC (a agência de proteção ao consumidor dos EUA) chegou a um acordo com a Flo Health em 2021: a empresa foi obrigada a obter consentimento afirmativo antes de compartilhar dados de saúde e a notificar as usuárias afetadas, instruindo terceiros a destruir os dados recebidos.3

Premom, 2023. O app de rastreamento de fertilidade Premom foi alvo de uma ação regulatória da FTC em maio de 2023 por compartilhar dados reprodutivos e de localização identificáveis de centenas de milhares de usuárias com firmas analíticas, incluindo empresas chinesas, desde 2018.4 A Easy Healthcare, desenvolvedora do app, pagou US$ 100.000 em multa e foi proibida permanentemente de compartilhar dados de saúde de usuárias com terceiros para fins publicitários.4

Strava heatmap, 2018. O app de atividade física Strava lançou um mapa global de calor mostrando todas as rotas percorridas por seus usuários. Em janeiro de 2018, o pesquisador australiano Nathan Ruser identificou que o mapa expunha a localização, perímetros e rotas de patrulha de bases militares dos EUA e aliados no Iraque, Afeganistão e Síria, locais onde militares usavam o app durante serviço.5 O caso ilustra como dados de localização coletados por um app de fitness podem revelar informações sensíveis que o próprio usuário não percebe estar compartilhando.

O padrão pós-Dobbs. Após a decisão da Suprema Corte dos EUA em 2022 que derrubou o direito federal ao aborto, apps de rastreamento de ciclo menstrual viraram foco de preocupação: dados sobre atrasos menstruais, tentativas de engravidar e localização poderiam potencialmente ser usados em investigações criminais em estados com leis restritivas.3 O contexto é americano, mas o princípio se aplica em qualquer jurisdição: dados reprodutivos coletados por conveniência podem ter usos que a usuária não previu.

Seus direitos pela LGPD

A LGPD (Lei 13.709/2018) garante ao titular dos dados, entre outros direitos:1

  • Confirmação e acesso: saber se seus dados estão sendo tratados e acessar quais dados são esses (Art. 18, I e II).
  • Correção: solicitar a correção de dados incompletos, inexatos ou desatualizados (Art. 18, III).
  • Eliminação: pedir a eliminação dos dados tratados com base em consentimento (Art. 18, VI).
  • Revogação do consentimento: retirar o consentimento dado a qualquer momento (Art. 18, IX).
  • Portabilidade: receber seus dados em formato que permita uso por outro serviço (Art. 18, V).
  • Informação sobre compartilhamento: saber com quais entidades seus dados foram compartilhados (Art. 18, VII).
  • Revisão de decisão automatizada: solicitar revisão humana de decisões tomadas unicamente por algoritmos (Art. 20).

O Art. 17 ancora tudo isso: toda pessoa natural tem assegurada a titularidade de seus dados pessoais como direito fundamental de liberdade, intimidade e privacidade.1

Na prática, para exercer esses direitos você precisa acessar o canal de atendimento ao titular do controlador, que pode ser a empresa do wearable, o app de terceiro ou qualquer serviço que trate seus dados. A empresa tem prazo para responder.

A ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) é o órgão federal responsável por fiscalizar o cumprimento da LGPD, aplicar sanções administrativas e emitir regulamentações.6 A Agenda Regulatória 2025-2026 da ANPD coloca dados de saúde e biometria entre as 16 prioridades temáticas, com meta de dez ações de fiscalização envolvendo essas categorias até o final de 2026.6 Se você acredita que seus direitos foram violados e a empresa não respondeu, pode registrar reclamação diretamente na ANPD.

O tema da privacidade em saúde digital também aparece em outro contexto relevante: o uso de IA para transcrever consultas médicas. O artigo sobre ambient scribes e IA na consulta cobre como a LGPD se aplica ao consentimento nesses sistemas, com raciocínio paralelo ao dos wearables.

A lacuna entre marketing e termos de uso

A maioria das políticas de privacidade de wearables e apps de saúde é extensa, técnica e modificável unilateralmente. Alguns pontos que vale verificar antes de confiar no dispositivo:

Consentimento de pesquisa. Muitos apps pedem autorização para "contribuir com pesquisas científicas" ou "melhorar produtos". Quando você aceita, seus dados fisiológicos anonimizados, ou não, podem ser transferidos para parceiros de pesquisa corporativos. Veja se há como recusar essa opção sem perder a funcionalidade principal.

SDKs de terceiros embutidos. Apps de saúde frequentemente integram kits de desenvolvimento (SDKs) de empresas de analytics e publicidade. Esses SDKs têm acesso aos dados que o app acessa. O usuário geralmente não sabe quais SDKs estão presentes e para onde cada um envia os dados.

Revenda de dados. Alguns termos de uso preveem explicitamente a possibilidade de transferência de dados em caso de fusão, aquisição ou venda da empresa. Dados que você confiou ao app A podem acabar com a empresa B após uma aquisição.

Jurisdição. Empresas de wearables costumam ter sede nos EUA, Europa ou China. Seus dados podem estar armazenados em servidores em outra jurisdição, sujeitos a leis locais diferentes da LGPD.

Como limitar o que você compartilha

Controle total não é realista: o wearable só funciona se coletar dados. Mas há passos práticos para reduzir o compartilhamento desnecessário.

  1. Revise as permissões do app no celular. No iOS: Ajustes > Privacidade e Segurança. No Android: Configurações > Aplicativos > Permissões. Remova acesso a localização, microfone e câmera se o app de wearable não precisa disso para funcionar.
  2. Desative a localização em segundo plano. A maioria dos apps de fitness só precisa de GPS durante o treino. Mude a permissão de "sempre" para "somente ao usar o app" ou "nunca" se não usa GPS integrado.
  3. Localize e desative o toggle de compartilhamento para pesquisa. Apple Health, Google Fit e Oura têm opções de consentimento de pesquisa nas configurações. Procure por "pesquisa", "contribuições" ou "data for research" e revise o que está ativado.
  4. Não conecte apps de terceiros desnecessários. Cada integração (app de dieta, meditação, coaching) adiciona um controlador novo com acesso aos seus dados. Revise periodicamente quais apps têm acesso à sua conta principal.
  5. Prefira processamento no dispositivo quando disponível. Alguns wearables oferecem opção de processar dados localmente sem sincronizar na nuvem. O Apple Watch tem modo de privacidade avançado no iOS; verifique o equivalente no seu ecossistema.
  6. Leia as seções que importam na política de privacidade. Não precisa ler tudo. Foque em: "como compartilhamos seus dados", "parceiros terceiros" e "como exercer seus direitos". São geralmente seções com esse nome ou similar.
  7. Solicite a eliminação dos dados se parar de usar o serviço. Isso é direito garantido pela LGPD. A maioria dos apps tem um formulário de exclusão de conta, mas exclusão de conta não é automaticamente exclusão de dados nos servidores. Solicite explicitamente a exclusão dos dados pessoais.

O ponto de equilíbrio

Wearables têm utilidade clínica e de bem-estar real. Monitorar FC, sono e atividade pode identificar tendências que valem atenção médica. O ponto não é deixar de usar: é saber o que você está cedendo em troca da conveniência.

A LGPD existe para que esse tradeoff seja informado, não imposto. Consentimento específico para finalidades específicas é o princípio. Na prática, ainda há uma distância considerável entre esse princípio e o que parte da indústria implementa. A fiscalização da ANPD, em expansão, é o mecanismo para reduzir essa distância.6

Enquanto isso, as ferramentas práticas de cima já reduzem significativamente o que vaza do seu pulso para servidores que você não escolheu.


Este conteúdo é informativo e tem caráter de orientação geral sobre privacidade de dados, não constituindo aconselhamento jurídico individual. A aplicação da LGPD a situações específicas pode variar conforme o contexto. Em caso de suspeita de violação de dados pessoais, você pode registrar reclamação na ANPD (gov.br/anpd) ou buscar orientação jurídica especializada.

Fontes

  1. Lei n. 13.709, de 14 de agosto de 2018 (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, LGPD). Art. 5º, inciso II (definição de dados sensíveis) e Art. 11 (hipóteses de tratamento). Presidência da República, Brasil.· regulator
  2. Grundy Q, Chiu K, Held F, Continella A, Bero L, Holz R. Data sharing practices of medicines related apps and the mobile ecosystem: traffic, content, and network analysis. BMJ. 2019;364:l920. PMID 30894349.· paper
  3. Federal Trade Commission. FTC Finalizes Order with Flo Health, a Fertility-Tracking App that Shared Sensitive Health Data with Facebook, Google, and Others. June 2021.· regulator
  4. Federal Trade Commission. FTC Takes Action Against Easy Healthcare / Premom Fertility App for Sharing Sensitive Health Data. May 2023.· regulator
  5. Ruser N (Australian Strategic Policy Institute). Strava heatmap exposes military base locations and patrol routes. Janeiro 2018. Cobertura: Wired, The Guardian, The Washington Post.· news
  6. Agenda Regulatória da ANPD 2025-2026: dados de saúde e biometria entre as 16 prioridades temáticas. Autoridade Nacional de Proteção de Dados, Brasil.· regulator

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