Desde novembro de 2025, rins de porco geneticamente modificados são avaliados em um ensaio clínico formal com pessoas vivas que têm doença renal terminal12.
Casos anteriores mostraram que o órgão pode produzir urina, filtrar o sangue e manter uma pessoa fora da diálise por semanas ou meses. Também registraram rejeição, infecções, efeitos da imunossupressão e perdas do enxerto.
O nome dessa área é xenotransplante: transplantar células, tecidos ou órgãos entre espécies diferentes. O objetivo é ampliar a oferta de órgãos. Rejeição e imunossupressão são os principais limites atuais.
Por que um rim de porco seria usado
O rim humano disponível para transplante é escasso, e a necessidade é contínua. Pessoas com doença renal terminal podem passar anos em diálise enquanto aguardam um doador. Porcos têm órgãos de tamanho compatível, reprodução rápida e uma cadeia de criação que pode ser controlada.
Um rim suíno comum, porém, seria rejeitado quase imediatamente. Açúcares na superfície das células do porco ativam anticorpos humanos; proteínas reguladoras funcionam de modo diferente; e o crescimento e a coagulação também precisam ser controlados.
Por isso, os doadores são editados geneticamente. Alguns programas removem genes suínos que provocam rejeição e adicionam genes humanos ligados à coagulação e à resposta imune. Outros fazem dezenas de alterações e inativam sequências virais presentes no genoma do porco. Em estudos pré-clínicos, rins de doadores com 69 edições sustentaram macacos por períodos prolongados, embora os resultados variassem conforme o esquema de imunossupressão3.
Empresas e centros testam conjuntos diferentes de edições genéticas e esquemas de imunossupressão.
O que aconteceu com os primeiros receptores
Em março de 2024, um homem de 62 anos recebeu em Boston um rim suíno com 69 edições, dentro de uma autorização excepcional. O órgão começou a funcionar imediatamente. No oitavo dia, apareceu rejeição mediada por células T, revertida com tratamento. O receptor morreu subitamente no 52º dia. A autópsia encontrou doença coronariana grave e não mostrou rejeição ativa como causa da morte4.
O caso demonstrou função inicial do órgão. O acompanhamento de 52 dias em uma pessoa não permite estimar eficácia ou segurança para uma população.
Outras experiências ampliaram o tempo:
- Towana Looney recebeu em novembro de 2024 um rim de porco com dez modificações e chegou a voltar para casa. O órgão foi removido 130 dias depois, em abril de 2025, após rejeição aguda que surgiu quando a imunossupressão precisou ser reduzida durante o tratamento de uma infecção5.
- Tim Andrews recebeu um rim com 69 edições em janeiro de 2025. Segundo atualização da empresa responsável, o enxerto foi removido após 271 dias, em outubro, e ele voltou à diálise; em janeiro de 2026, recebeu um rim humano6.
Os relatos usaram órgãos, protocolos e condições clínicas diferentes. Em conjunto, registram função por meses e dificuldade persistente para equilibrar rejeição, infecção e toxicidade dos medicamentos.
O que muda com um ensaio clínico
Uso compassivo trata casos individuais quando as alternativas são muito limitadas. Um ensaio clínico parte de um protocolo comum, define quem pode participar, quais desfechos serão medidos e quando o estudo pode parar por segurança.
O estudo EXPAND, registrado como NCT06878560, avalia um rim com dez modificações genéticas em adultos com doença renal terminal. A primeira coorte reúne seis participantes; o registro atual estima até 50 pessoas se as expansões previstas avançarem. Entre os desfechos estão sobrevivência do paciente e do enxerto, função renal, rejeição, infecções e eventos adversos. Depois das primeiras 24 semanas, o acompanhamento de sobrevivência, função do órgão e infecções entre espécies continua ao longo da vida12.
O primeiro transplante do ensaio foi anunciado em 3 de novembro de 20252. O procedimento continua experimental e sem aprovação para uso rotineiro.
| Pergunta | O que já se sabe | O que ainda falta |
| O rim funciona em humano? | Pode filtrar o sangue e substituir a diálise por meses | Saber a duração típica em grupos maiores |
| A rejeição pode ser controlada? | Alguns episódios responderam a tratamento | Evitar rejeição sem imunossupressão excessiva |
| Há risco de infecção? | Há criação controlada e monitoramento de patógenos | Quantificar infecções raras e risco de transmissão |
| Pode virar rotina? | Ensaios formais começaram | Resultados comparativos, aprovação e capacidade de produção |
Riscos além da rejeição
Uma é infecciosa. Os animais doadores são criados em instalações controladas e testados para patógenos, mas a vigilância precisa procurar agentes conhecidos e sinais inesperados. Como um possível patógeno poderia afetar não só o receptor, o acompanhamento de longo prazo também tem uma dimensão de saúde pública1.
Outra é a coagulação. A interação entre o endotélio suíno e o sangue humano pode favorecer inflamação, trombose ou microangiopatia. As edições tentam reduzir essa incompatibilidade, sem eliminá-la por completo3.
Há ainda o custo da imunossupressão. Remédios potentes protegem o enxerto, mas elevam risco de infecção, toxicidade e outros eventos. O caso de Looney ilustra o dilema: reduzir a imunossupressão para enfrentar uma infecção abriu espaço para rejeição5.
Impacto na fila de transplante
Em dezembro de 2025, o Brasil tinha 38.925 pessoas na lista ativa por um rim, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos7. Os xenotransplantes experimentais realizados nos Estados Unidos ainda não alteram essa fila.
Mesmo se os ensaios forem positivos, surgirão perguntas de escala: quantos animais podem ser criados com padrão clínico, quanto custa cada órgão, quais centros conseguem realizar o procedimento, quem será elegível e como acompanhar receptores por décadas.
Os ensaios descritos aqui são realizados nos Estados Unidos. No Brasil, pessoas em diálise devem manter o acompanhamento e a avaliação para transplante humano conforme orientação da equipe. Esses resultados não justificam buscar o procedimento em clínica privada ou por turismo médico.
O que o ensaio pode responder
Os casos isolados deram lugar a um protocolo formal capaz de comparar segurança e função ao longo do tempo. Assim como o primeiro transplante de olho inteiro mostrou sobrevivência de um tecido complexo sem restaurar visão, o rim suíno mostra função biológica sem ainda provar durabilidade suficiente para rotina.
A história também depende de edição genética, mas difere de terapias que editam as células do próprio paciente, como os estudos de CRISPR para amiloidose ATTR. Aqui, a edição acontece no animal doador para tornar o órgão menos incompatível.
O ensaio passa a medir resultados de forma comparável. Os principais desfechos são duração do enxerto, rejeição, infecções e efeitos da imunossupressão. Até agora, há função por meses em alguns receptores, sem dados suficientes para uso rotineiro.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica. Xenotransplante renal permanece experimental e não é alternativa de rotina à diálise ou ao transplante humano. Decisões sobre terapia renal substitutiva devem ser tomadas com a equipe de nefrologia e transplante.
