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IA em Saúde

IA na mamografia aumentou a sensibilidade sem elevar falsos positivos

Com mais de 105 mil participantes na Suécia, o estudo encontrou maior sensibilidade e menor carga de leitura. A redução de cânceres de intervalo foi numérica, mas não estatisticamente significativa.

Por Dr. Lucca Ortolan Hansen· 30 de agosto de 2026· Revisado por Lucca Ortolan Hansen
Risco médio

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Equipamento de mamografia laranja e branco em uma sala de exames
No MASAI, a inteligência artificial não emitiu sozinha o diagnóstico. Ela classificou o risco e ajudou a definir o fluxo de leitura das mamografias. Foto: Bill Branson / National Cancer Institute

No ensaio MASAI, um fluxo apoiado por inteligência artificial aumentou a sensibilidade da mamografia, manteve a proporção de falsos positivos e reduziu em 44% o número de leituras humanas. O estudo, realizado num programa de rastreamento da Suécia, ainda não demonstrou redução estatisticamente significativa dos cânceres diagnosticados entre duas rodadas.

Como o MASAI funcionou

O MASAI foi um ensaio randomizado populacional. Mulheres convidadas para rastreamento mamográfico na Suécia foram sorteadas para o fluxo habitual, com duas leituras independentes por radiologistas, ou para um fluxo apoiado por IA1.

No grupo de IA, o sistema atribuiu uma pontuação de risco às mamografias. Exames de risco baixo receberam uma leitura humana; os de risco alto, duas. A ferramenta também marcava áreas suspeitas para apoiar o radiologista. A decisão final continuou humana.

O diagnóstico final continuou sob responsabilidade dos radiologistas. A IA classificou o risco e marcou áreas suspeitas.

Na análise mais recente, 105.934 participantes haviam sido randomizadas, com 19 exclusões posteriores. O estudo comparou câncer de intervalo, sensibilidade e especificidade depois do seguimento da rodada de rastreamento1.

Cânceres diagnosticados entre as rodadas

Câncer de intervalo é aquele diagnosticado depois de uma mamografia de rastreamento considerada negativa e antes do próximo exame programado. É um desfecho relevante porque inclui tumores que estavam ocultos, foram perdidos na leitura ou cresceram rapidamente entre as rodadas.

No grupo apoiado por IA, a taxa foi de 1,55 câncer de intervalo por mil participantes. No grupo padrão, foi de 1,76 por mil. A razão entre as taxas foi 0,88, com intervalo de confiança de 95% entre 0,65 e 1,18 e p de 0,411.

A diferença não alcançou significância estatística. O ensaio cumpriu o critério de não inferioridade, sem demonstrar superioridade para esse desfecho.

Onde a IA foi melhor

A sensibilidade, proporção dos cânceres existentes que o rastreamento encontrou, foi de 80,5% com apoio de IA e 73,8% no fluxo padrão. A diferença foi estatisticamente significativa. A especificidade ficou em 98,5% nos dois grupos1.

DesfechoIA + radiologistaLeitura padrãoLeitura correta
Sensibilidade80,5%73,8%Maior com IA
Especificidade98,5%98,5%Sem diferença relevante
Câncer de intervalo1,55 por mil1,76 por milMenor numericamente, sem superioridade estatística

A análise também encontrou numericamente menos cânceres de intervalo invasivos, tumores maiores e subtipos não luminais A no grupo IA. O estudo não avaliou redução de mortalidade e não permite generalizar o desempenho para outros programas ou softwares1.

O ganho de carga de trabalho

A primeira análise do MASAI, publicada em 2023 com cerca de 80 mil participantes, olhou a segurança inicial. O grupo IA detectou 244 cânceres, contra 203 no grupo padrão. A taxa de reconvocação foi 2,2% contra 2,0%, e a taxa de falsos positivos ficou em 1,5% nos dois grupos2.

O número de leituras de tela caiu 44,3% no grupo apoiado por IA2. Exames de baixo risco recebiam uma leitura em vez de duas.

A análise da população completa, publicada em 2025, confirmou o padrão. Foram detectados 338 cânceres com IA e 262 no grupo padrão. A reconvocação ficou em 2,1% contra 1,9%, diferença que não alcançou significância estatística, e os falsos positivos ficaram em 1,5% contra 1,4%. Houve 61.248 leituras no grupo IA e 109.692 no controle, redução de 44,2% na carga de leitura3.

O estudo mediu leituras poupadas, não a carga total de implantação. Validação local, monitoramento de falhas, atualizações e resposta a incidentes continuam exigindo trabalho da equipe.

Força e limites do estudo

Muitos estudos de IA médica usam bancos de imagens já existentes. O algoritmo lê exames antigos, e os pesquisadores comparam a resposta com diagnósticos conhecidos. Isso é útil para desenvolvimento, mas não mostra como profissionais e software se comportam juntos no atendimento real.

O MASAI sorteou o fluxo antes do resultado e acompanhou o que aconteceu depois. Esse desenho reduz vieses e testa a intervenção dentro de um programa de rastreamento. O registro informa que o ensaio foi concluído e identifica câncer de intervalo como desfecho principal4.

Ainda há limites. Participantes, organização do serviço, frequência de rastreamento, equipamentos e experiência dos radiologistas refletem a Suécia. Algoritmos podem perder desempenho quando mudam a população, o fabricante do mamógrafo ou a prevalência de doença.

O ensaio avaliou o Transpara 1.7.0, da ScreenPoint Medical, dentro de um fluxo específico. O financiamento declarado veio de entidades públicas e sem fins lucrativos; ScreenPoint, Sectra e Unilabs prestaram suporte técnico. Entre os conflitos informados, a pesquisadora principal relatou ter integrado um conselho da Siemens Healthineers, recebido honorários da AstraZeneca e ser cofundadora de uma empresa de IA para ultrassom de mama; outra autora dirige um programa norueguês com acordo de pesquisa com a ScreenPoint1. A replicação independente segue necessária.

“IA na mamografia” não é um produto único. O resultado não certifica automaticamente outros softwares. O estudo também não coletou dados de raça ou etnia, o que limita a avaliação de equidade e a transferência para a população brasileira1.

O que isso significa para o Brasil

No SUS, o rastreamento populacional de rotina é orientado para mulheres de 50 a 74 anos, a cada dois anos. Fora dessa faixa, a mamografia pode ser indicada conforme sintomas, risco e decisão clínica5. A diferença entre rastreamento e investigação de sintomas continua valendo com ou sem IA.

Uma ferramenta que reduza leituras pode ajudar em lugares com poucos radiologistas. O benefício para as pacientes também depende de acesso ao mamógrafo, tempo até o diagnóstico, capacidade de biópsia e início do tratamento.

Antes de adotar um sistema em escala, seria preciso testar:

  • desempenho em mulheres brasileiras e em diferentes grupos raciais;
  • compatibilidade com os equipamentos usados na rede;
  • impacto no tempo até biópsia e tratamento;
  • custo total, incluindo infraestrutura e supervisão;
  • comportamento diante de exames difíceis e falhas técnicas.

A regulação do CFM sobre IA em medicina reforça responsabilidade profissional e supervisão. O radiologista não deixa de responder pelo laudo porque um algoritmo participou do fluxo.

O que o MASAI acrescenta

O MASAI oferece evidência randomizada de que a IA pode aumentar a sensibilidade e reduzir leituras sem elevar falsos positivos naquele programa sueco. Mortalidade, equidade e desempenho em outros sistemas de saúde continuam sem resposta.

No Brasil, a eventual adoção exigiria validação na população e nos equipamentos locais, além de avaliação do impacto sobre todo o percurso entre rastreamento e tratamento.


Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Inteligência artificial não altera, por conta própria, a indicação de mamografia. Nódulo, secreção com sangue, retração da pele ou outra mudança na mama devem ser avaliados, mesmo fora da idade de rastreamento.

Fontes

  1. Gommers J et al. Interval cancer, sensitivity, and specificity comparing AI-supported mammography screening with standard double reading without AI in the MASAI study. The Lancet, 2026.· paper
  2. Lång K et al. Artificial intelligence-supported screen reading versus standard double reading in the Mammography Screening with Artificial Intelligence trial (MASAI). The Lancet Oncology, 2023.· paper
  3. Hernström V et al. Screening performance and characteristics of breast cancer detected in the Mammography Screening with Artificial Intelligence trial (MASAI). The Lancet Digital Health, 2025.· paper
  4. Mammography Screening With Artificial Intelligence (MASAI). ClinicalTrials.gov, NCT04838756.· trial_registry
  5. Ministério da Saúde padroniza informações para acesso ao exame de mamografia no SUS. Instituto Nacional de Câncer.· regulator

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