Você usa Ozempic, Wegovy ou Mounjaro (ou conhece alguém que usa) e leu alguma manchete sobre risco de cegueira. A pergunta é legítima e merece uma resposta cuidadosa: não "não se preocupe" nem "pare já o medicamento". Merece números reais, contexto e honestidade sobre o que a ciência sabe e o que ainda não sabe.
Respira. Vamos entender isso direito.
O que é NAION
NAION é a sigla para neuropatia óptica isquêmica anterior não-arterítica, uma das principais causas de perda visual súbita em adultos com mais de 50 anos. O que acontece é simples de entender: o nervo óptico fica temporariamente sem sangue suficiente, e as células nervosas que morrem não se recuperam. A perda é geralmente unilateral (um olho por vez), sem dor, e pode ir de uma mancha no campo visual até perda significativa da visão. Não existe tratamento eficaz estabelecido, o que faz da prevenção e da vigilância os únicos recursos disponíveis.
Na população geral adulta, NAION ocorre em cerca de 2 a 10 casos por 100.000 pessoas por ano. Em pessoas com diabetes, hipertensão, apneia do sono e disco óptico pequeno (fatores de risco conhecidos), essa taxa é mais alta. Esses são os mesmos perfis de paciente que frequentemente recebem semaglutida ou tirzepatida.
O sinal inicial: o estudo de Hathaway et al. (2024)
Em agosto de 2024, pesquisadores do Massachusetts Eye and Ear (MEEI), ligado à Harvard, publicaram no JAMA Ophthalmology um estudo retrospectivo que chamou atenção.1 Analisando prontuários de pacientes do próprio serviço, Hathaway e colegas compararam quem usava semaglutida com quem usava outros medicamentos para diabetes ou para controle de peso.
Os números relativos foram expressivos: nos pacientes com diabetes, a razão de risco (hazard ratio) foi de 4,28, ou seja, os usuários de semaglutida tiveram mais de quatro vezes mais risco de desenvolver NAION em comparação ao grupo controle. No grupo com obesidade/sobrepeso sem diabetes, o HR foi ainda maior: 7,64.
Mas os números absolutos colocam isso em perspectiva: a incidência cumulativa de NAION em 36 meses foi de 8,9% no grupo semaglutida e 1,8% no grupo controle, entre pacientes diabéticos. Isso é mais alto do que a taxa basal na população geral, e o próprio tamanho da coorte (poucos centenas de pacientes, de um único centro acadêmico especializado) já levanta a questão: este serviço atende casos mais complexos do que a média.
Como lemos este estudoTipo: Observacional retrospectivo de centro único (Massachusetts Eye and Ear / Harvard)População: Pacientes do serviço de neuro-oftalmologia do MEEI — coorte de diabetes (n=194 semaglutida, n=516 controles) e coorte de sobrepeso/obesidade (n=361 semaglutida, n=618 controles)Desfecho principal: Diagnóstico de NAION registrado em prontuário durante seguimento de até 36 mesesTamanho do efeito (relativo): HR 4,28 (IC95% 1,62–11,29) no grupo diabetes; HR 7,64 (IC95% 2,21–26,36) no grupo obesidade/sobrepesoTamanho do efeito (absoluto): Incidência cumulativa em 36 meses: 8,9% vs 1,8% (diabetes); 6,7% vs 0,8% (obesidade)Principal limitação: Centro único de referência terciária com viés de encaminhamento. Pacientes do MEEI já têm doença ocular mais grave que a média; n pequeno; sem controle para múltiplos fatores de confundimentoO que NÃO permite concluir: Causalidade. Não permite generalizar para toda população que usa semaglutida. Os valores absolutos do estudo provavelmente superestimam o risco real em população geralFonte principal: doi.org/10.1001/jamaophthalmol.2024.2296
Replicações: o que os estudos maiores encontraram
Após a publicação de Hathaway et al., outros grupos tentaram replicar (ou refutar) o achado em populações maiores e mais representativas.
Estudo dinamarquês-norueguês (Simonsen et al., 2025): Uma coorte populacional com mais de 44.500 usuários de semaglutida na Dinamarca e 16.860 na Noruega, comparados a usuários de inibidores de SGLT-2 (outra classe de medicamento para diabetes). O HR agrupado foi de 2,81 (IC95% 1,67–4,75).2 O número absoluto coloca isso em perspectiva: houve apenas 32 eventos de NAION no total. A diferença de incidência foi de +1,41 por 10.000 pessoas-ano, um risco adicional real, porém pequeno. Os próprios autores concluem que o benefício cardiovascular da semaglutida supera amplamente esse risco em termos populacionais.
Hsu et al. (JAMA Ophthalmology, 2025): Uma coorte retrospectiva com 3,3 milhões de pacientes diabéticos, dos quais 174.584 usavam semaglutida. O risco não apareceu no primeiro ano; surgiu de forma consistente nos marcos de 2, 3 e 4 anos de acompanhamento (HR aproximadamente 2,39 a 2,44).3 Isso sugere que o risco, se existir, pode ser cumulativo ou de aparecimento tardio, e que o período de observação curto dos estudos iniciais pode ter subestimado o sinal.
Wang et al. (JAMA Network Open, 2025): Análise com pareamento por escore de propensão (propensity score matching) de 159.398 pacientes com diabetes tipo 2, o maior estudo até o momento que inclui tanto semaglutida quanto tirzepatida. O HR para NAION foi de 1,76 (IC95% 1,01–3,07), com risco absoluto de 0,04% durante 2 anos de seguimento.4 Também foi encontrado aumento de risco para outros distúrbios do nervo óptico (HR 1,65). Este é o único estudo de grande porte a avaliar tirzepatida e semaglutida conjuntamente.
E a tirzepatida (Mounjaro)?
Aqui a evidência é mais escassa, e isso importa. A tirzepatida é uma molécula diferente da semaglutida: atua nos receptores GLP-1 e GIP (duplo agonista), enquanto a semaglutida é um agonista GLP-1 puro. Os mecanismos não são idênticos.
O estudo de Wang et al. (2025) agrupou semaglutida e tirzepatida na mesma análise e encontrou sinal de risco.4 Mas não há, até a data desta publicação, um estudo de grande porte que avalie tirzepatida de forma isolada.
Existe um estudo de farmacovigilância (Castellana & Chiappetta, Hospital Pharmacy, 2026) que analisou 28 casos de neuropatia óptica isquêmica reportados ao banco de dados FAERS (sistema de eventos adversos dos EUA) associados à tirzepatida. As métricas de desproporcionalidade foram estatisticamente significativas (ROR 2,60; IC95% 1,78–3,80).5 Esses achados sugerem um sinal que merece atenção, mas farmacovigilância passiva tem limitações importantes: não controla para quem usa a medicação nem para fatores de confundimento. Sinaliza, mas não confirma.
Resumo para tirzepatida: existe um sinal suspeito, mas a evidência específica é muito mais fraca do que para semaglutida. Estudos maiores e com metodologia robusta são necessários.
O que as agências reguladoras estão dizendo
Em janeiro de 2025, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) abriu revisão de segurança formal sobre semaglutida e NAION. Em junho de 2025, o Comitê de Avaliação de Riscos em Farmacovigilância (PRAC) concluiu que NAION é um efeito adverso "muito raro" da semaglutida e recomendou inclusão na bula europeia, com orientação de suspender o medicamento caso NAION seja confirmada.6
Em junho de 2025, a OMS também emitiu alerta, recomendando que pacientes com perda visual súbita em uso de semaglutida busquem atendimento imediato.
A FDA americana, até a data desta publicação, não havia atualizado a bula dos medicamentos com menção a NAION, mas havia o sinal na lista de monitoramento do sistema FAERS.
A ANVISA (Brasil) não publicou comunicado específico sobre semaglutida e NAION até a data deste artigo.
Posicionamento das sociedades oftalmológicas
Em julho de 2025, a Academia Americana de Oftalmologia (AAO) e a Sociedade Norte-Americana de Neuro-Oftalmologia (NANOS) responderam à recomendação da EMA com uma nota conjunta.6 O posicionamento diz, em síntese: não recomendam suspensão automática da semaglutida; recomendam decisão compartilhada entre paciente e equipe médica. Destacam que "a evidência disponível não estabeleceu que a semaglutida causa NAION, apenas uma associação potencial".
Por que NAION pode ocorrer? As hipóteses mecanísticas
Nenhum mecanismo foi comprovado, mas há hipóteses. A queda rápida de hemoglobina glicada (HbA1c) com o início de GLP-1 agonistas pode alterar a autorregulação do fluxo sanguíneo no nervo óptico, fenômeno parecido com a "retinopatia de piora precoce" já descrita em ensaios clínicos de semaglutida em pessoas com retinopatia diabética avançada. Outra hipótese: a redução de peso rápida pode agravar apneia do sono transitoriamente, aumentando episódios de hipóxia noturna — um fator de risco estabelecido para NAION. São hipóteses biologicamente plausíveis, mas ainda sem evidência confirmatória.
O que dá para concluir
- Existe um sinal real e consistente de associação entre semaglutida e NAION em múltiplos estudos observacionais com populações distintas.
- O risco relativo varia entre os estudos (HR entre 1,76 e 4,28), mas o risco absoluto permanece pequeno: da ordem de 1 a 2 casos adicionais por 10.000 pessoas por ano, dependendo da população estudada.
- O risco parece maior em pessoas com fatores de risco já existentes: diabetes, hipertensão, disco óptico pequeno, apneia do sono.
- A EMA incluiu NAION como efeito adverso muito raro na bula europeia da semaglutida (junho de 2025).
- Para tirzepatida, existe sinal suspeito, mas a evidência ainda é insuficiente para conclusões firmes.
O que NÃO dá para concluir
- Que semaglutida ou tirzepatida causam NAION: todos os estudos são observacionais e não eliminam confundimento.
- Que qualquer pessoa em uso desses medicamentos desenvolverá problemas visuais. O risco absoluto é baixo.
- Que é preciso parar o medicamento preventivamente. Isso pode ter riscos próprios, especialmente cardiovasculares.
- Que os resultados de Hathaway et al. (2024) generalizam para toda a população. O estudo foi feito em centro de referência terciária, com seleção de casos mais complexos.
- Que tirzepatida tem o mesmo perfil de risco que semaglutida. As moléculas são diferentes e a evidência específica para tirzepatida é muito mais limitada.
O que muda na prática
Para quem usa semaglutida ou tirzepatida, a mensagem não é pânico nem indiferença. É vigilância.
Converse com quem prescreveu. Se você tem fatores de risco para NAION (diabetes com retinopatia, hipertensão, apneia do sono, histórico de doença vascular), esse sinal merece ser discutido na sua próxima consulta: sem urgência, mas sem ignorar.
Preste atenção nos sintomas. Perda visual súbita, embaçamento que aparece do nada em um olho, ou mancha no campo visual são sinais que exigem avaliação oftalmológica no mesmo dia, independentemente de qualquer medicamento que você esteja tomando.
Não interrompa por conta própria. A semaglutida tem benefícios cardiovasculares e metabólicos bem documentados. Suspendê-la sem indicação clínica traz riscos reais. A decisão é da equipe que acompanha você.
Quando buscar atendimento de urgência
Se você usa semaglutida ou tirzepatida e notar qualquer um dos seguintes sintomas, procure um oftalmologista ou pronto-atendimento ocular no mesmo dia:
- Perda de visão súbita em um olho, mesmo que parcial
- Escurecimento ou sombra no campo visual
- Visão embaçada que não melhora em minutos
NAION não é reversível. O tempo importa: não para tratamento (ainda não existe nenhum eficaz), mas para diagnóstico correto e para decisões clínicas sobre o medicamento.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Não interrompa nem inicie medicação sem conversar com quem prescreveu.
