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Quando ir ao oftalmologista se você tem diabetes — um guia completo

Um guia para pacientes com diabetes tipo 1 e tipo 2 sobre quando fazer o primeiro exame, com que frequência repetir, e os sinais que mudam o jogo.

Por Dr. Lucca Ortolan Hansen· 30 de abril de 2026· Revisado por Lucca Ortolan Hansen
Revisado por médico

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Retinografia mostrando edema macular diabético com exsudatos amarelos na mácula
Fotografia de fundo de olho (retinografia) evidenciando edema macular diabético — uma das complicações silenciosas do diabetes que só o exame consegue detectar precocemente. Foto: National Eye Institute / Wikimedia Commons · Domínio público

Se você tem diabetes (tipo 1 ou tipo 2), já deve ter ouvido que precisa cuidar dos olhos. Mas poucos sabem exatamente quando ir, o que esperar, e o que fazer quando a fila do SUS está fechada ou o particular está caro. Este guia responde isso de forma direta, com base nas recomendações mais atuais das principais diretrizes nacionais e internacionais.

Para quem é este guia

Para você, que tem diabetes tipo 1 ou tipo 2, ou cuida de alguém que tem. Inclui orientações para gestantes com diabetes preexistente. Não cobre diabetes gestacional isolado (DMG), que tem regra diferente.

O que você precisa saber antes: por que diabetes afeta os olhos

O diabetes eleva o açúcar no sangue por anos. Vasos sanguíneos finos (como os que nutrem a retina, a película sensível à luz no fundo do olho) são os primeiros a sofrer. O resultado é a retinopatia diabética: os vasos vazam, incham, ou crescem de forma anormal. Nos estágios avançados, pode haver sangramento dentro do olho e perda de visão irreversível.

Outras complicações oculares relacionadas ao diabetes incluem:

  • Edema macular diabético — acúmulo de líquido na mácula, região central da retina responsável pela leitura e detalhes finos.
  • Catarata — opacidade do cristalino, que aparece mais cedo em pessoas com diabetes.
  • Glaucoma — pressão elevada dentro do olho, com risco aumentado em diabéticos.

O dado que precisa ficar: estima-se que cerca de 35 a 37% dos brasileiros com diabetes já tenham algum grau de retinopatia diabética.3 Grande parte dessas pessoas não sabem, porque a doença costuma ser silenciosa nos estágios iniciais — sem dor, sem visão turva, sem sintoma algum.

A boa notícia: detectada cedo, a progressão pode ser retardada e, na maioria dos casos, a cegueira é evitável.

A regra principal: tipo 1 e tipo 2 têm regras diferentes

Este é o ponto mais importante do guia. A data do primeiro exame depende do tipo de diabetes.

Diabetes tipo 1

O diabetes tipo 1 é autoimune: o sistema imune destrói as células do pâncreas que produzem insulina. O diagnóstico costuma acontecer na infância ou adolescência, e o paciente usa insulina desde o início.

Regra: o primeiro exame oftalmológico completo (com pupila dilatada) deve ser feito cinco anos após o diagnóstico, ou na puberdade, o que vier primeiro.1

Por que não antes? Estudos mostram que a retinopatia clinicamente significativa raramente aparece antes de cinco anos de diabetes em crianças pré-púberes com bom ou razoável controle.1 A puberdade, porém, acelera a progressão. Daí a ressalva.

Exemplos práticos: diagnosticado com 7 anos → primeiro exame aos 12 (ou antes, se entrar na puberdade). Diagnosticado com 16 anos → aos 21 anos, salvo puberdade antecipada.

Diabetes tipo 2

O diabetes tipo 2 é diferente: resulta de resistência à insulina (o pâncreas produz insulina, mas o corpo não responde bem). O diagnóstico ocorre geralmente na vida adulta, muitas vezes após anos de glicemia elevada sem sintomas. Isso significa que a retinopatia pode já estar presente no momento em que o diabetes é descoberto.

Regra: o primeiro exame oftalmológico deve ser feito ao diagnóstico: assim que você sabe que tem diabetes tipo 2, já agenda a consulta com oftalmologista.1

Esse ponto é frequentemente subestimado: um estudo com brasileiros com DM2 encontrou 37,3% de retinopatia na população avaliada, muitos deles ao diagnóstico.3

Com que frequência repetir

Após o primeiro exame:

  • Sem retinopatia, glicemia sob controle: exame anual é o padrão. Se dois ou mais anos consecutivos forem normais e o controle glicêmico estiver dentro da meta, seu oftalmologista pode espaçar para a cada 1–2 anos.1
  • Com retinopatia leve: pelo menos uma vez por ano.
  • Com retinopatia moderada ou grave: acompanhamento mais frequente, geralmente a cada 3–6 meses, a critério do retinologista.1

O que não fazer: ir uma vez, receber resultado normal e nunca mais voltar. Retinopatia pode se desenvolver a qualquer momento, especialmente quando o controle glicêmico piora.

Regras especiais: gravidez

A gravidez acelera a progressão da retinopatia diabética em mulheres com diabetes tipo 1 ou tipo 2 preexistente.1 Por isso:

  1. Antes de engravidar: consulta oftalmológica como parte do planejamento. Se houver retinopatia ativa, tratá-la antes da concepção é o ideal.
  2. No primeiro trimestre: exame obrigatório, mesmo que o último resultado tenha sido normal.
  3. Durante a gestação: acompanhamento a cada trimestre (ou seja, três vezes durante a gravidez), de acordo com a gravidade.
  4. Após o parto: acompanhamento no primeiro ano pós-parto, pois a retinopatia pode continuar progredindo.1

Exceção: diabetes gestacional (DMG) (surgido durante a gravidez, em quem não tinha diabetes antes) não exige rastreamento ocular.3 O risco de retinopatia nesse grupo é muito baixo.

O que esperar no exame

O exame começa com dilatação pupilar (colírio — leve óculos de sol, evite dirigir nas horas seguintes). O médico faz o mapeamento de retina, examinando vasos, mácula e nervo óptico. Se disponível, pode solicitar retinografia (fotografia da retina — rotina no privado, disponibilidade variável no SUS) e OCT (tomografia de coerência óptica, imagem em corte da mácula — útil para detectar edema precoce).

Sinais de alerta: não espere a consulta

Estes sintomas exigem contato com oftalmologista o quanto antes. Não espere a data do próximo exame de rotina:

  • Visão turva ou borrada de início súbito.
  • Manchas, "pontinhos" ou moscas volantes (pontos flutuantes) que apareceram de repente ou aumentaram muito.
  • Flashes de luz (fotopsias).
  • Escuridão parcial no campo visual, como uma "cortina" cobrindo parte do que você vê.
  • Dificuldade repentina para ler ou para enxergar de perto.

Esses sintomas podem indicar sangramento retiniano, descolamento de retina ou edema macular agudo. Situações que, tratadas com rapidez, têm melhor prognóstico.

O que o oftalmologista não cura, mas você pode controlar

O exame rastreia e trata. Mas a progressão da retinopatia depende muito do que acontece fora do consultório: glicemia (HbA1c elevada é o principal fator de risco modificável), pressão arterial alta, lipídios (colesterol/triglicérides) elevados e tabagismo aceleram o dano vascular.5 Controlar esses fatores com endocrinologista ou clínico é tão importante quanto a consulta anual com o oftalmologista.

E o SUS? Uma conversa honesta

A realidade do acesso é desigual. Retinografia não está disponível em todos os municípios. Em muitas cidades o rastreamento é feito só por fundoscopia. Um estudo brasileiro mostrou que a taxa de rastreamento subiu de 12,1% em 2014 para 21,2% em 2019, ainda muito abaixo do ideal.4 Filas existem: se houver sintomas, peça prioridade no encaminhamento. Onde não há oftalmologista disponível, médicos de família treinados para fundoscopia podem fazer triagem inicial e encaminhar os casos positivos.4

Perguntas para levar ao médico

  • Qual meu risco atual de retinopatia, com base na HbA1c e no tempo de diagnóstico?
  • Com que frequência devo repetir o exame de fundo de olho?
  • Tenho algum sinal de retinopatia ou edema macular hoje?
  • Onde fazer retinografia ou OCT pela minha cobertura?
  • Minha pressão e meu colesterol estão na meta para proteger a retina?

Resumo: a regra de bolso

Tipo de diabetesPrimeiro exameFrequência depois
Tipo 15 anos após diagnóstico (ou na puberdade)Anual; mais frequente se houver retinopatia
Tipo 2Ao diagnósticoAnual; mais frequente se houver retinopatia
Gestante com DM1 ou DM2Antes de engravidar + 1º trimestreA cada trimestre + 1 ano pós-parto
Diabetes gestacionalNão é indicado durante a gestação

Sabemos que muita gente vai uma vez e não volta. Não é culpa; é comum. A vida com diabetes já exige muita atenção em vários frontes. Mas o olho não avisa quando está em apuros. Colocar o exame na agenda, uma vez por ano, é o gesto mais simples e mais eficaz para proteger sua visão.


Este conteúdo é informativo e não substitui consulta com endocrinologista, oftalmologista ou clínico. Em caso de dúvidas, procure atendimento.

Fontes

  1. 12. Retinopathy, Neuropathy, and Foot Care: Standards of Care in Diabetes—2026· guideline
  2. Diabetic Retinopathy Preferred Practice Pattern® (AAO, 2025)· society
  3. Manejo da retinopatia diabética — Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025· society
  4. Rastreamento da retinopatia diabética pelo médico generalista na Atenção Primária de Saúde do Brasil· paper
  5. Retinopatia diabética: Uma revisão integrativa sobre fisiopatologia e fatores de risco· paper

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