A cirurgia de catarata é o procedimento cirúrgico mais realizado no mundo, e um dos mais seguros. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) realizou mais de 640 mil operações em 2021, número que seguiu crescendo nos anos seguintes com aportes federais específicos para reduzir filas.6 Nos últimos anos, essa cirurgia ganhou um companheiro de sala: o laser guiado por imagem e, mais recentemente, componentes com graus crescentes de automação robótica.
A pergunta que muita gente faz ao ouvir isso é direta: "O robô já opera meu olho? E é melhor do que a cirurgia normal?"
A resposta honesta é: depende do que chamamos de "robô", e o resultado final, na maioria dos casos, é equivalente nas duas abordagens quando bem executadas.
O que é FLACS — e o que ela faz
A técnica chamada de FLACS (do inglês femtosecond laser-assisted cataract surgery, ou cirurgia de catarata assistida por laser de femtossegundo) está em uso clínico desde cerca de 2009-2010 e foi incorporada a plataformas como Catalys (Johnson & Johnson), LenSx (Alcon) e ZEISS VisuMax, entre outras.
O que o laser de femtossegundo faz é automatizar as etapas mais delicadas do procedimento antes que o cirurgião intervenha com o ultrassom:
- Capsulorrexe (a abertura circular precisa na cápsula anterior do cristalino, ou seja, a membrana que envolve a lente natural);
- Fragmentação do núcleo do cristalino, reduzindo a energia de ultrassom necessária para dissolvê-lo;
- Incisões corneanas, feitas com precisão de imagem em vez de bisturi manual.
A faco-emulsificação convencional (a técnica padrão-ouro atual) faz tudo isso com a mão do cirurgião guiada por experiência e visão direta. O laser substitui essas etapas por um processo guiado por tomografia de coerência óptica (OCT), com precisão submilimétrica.
O que a evidência diz sobre o resultado
Uma meta-análise publicada no Canadian Journal of Ophthalmology em 2025, reunindo 41 ensaios clínicos randomizados e 9.310 olhos operados, mostrou que o FLACS produziu acuidade visual ligeiramente melhor na primeira semana de pós-operatório, capsulorrexes mais precisas e melhor centralização da lente intraocular.1 As diferenças estatísticas persistiram até 12 meses em alguns parâmetros, mas a magnitude clínica para o paciente típico continua sendo debatida.
Essa é a mensagem central da evidência acumulada: mais precisão técnica em vários parâmetros, sem que isso se traduza em diferença clinicamente relevante no resultado final para a maioria dos pacientes com cirurgia de catarata de rotina.
A diretriz oficial da Sociedade Europeia de Catarata e Cirurgia Refrativa (ESCRS), atualizada em 2024 com análise de dezenas de estudos, é objetiva: "ambas as técnicas são seguras e eficazes; acuidade visual e desfechos refracionais são comparáveis; as taxas gerais de complicações intra e pós-operatórias são baixas e semelhantes."5
Quando o laser pode fazer diferença
A mesma diretriz da ESCRS faz uma ressalva importante: o FLACS "pode ser considerado em pacientes com catarata densa ou baixa contagem de células endoteliais", porque a fragmentação a laser reduz a quantidade de ultrassom necessária: menos energia no olho significa menos risco de dano ao endotélio corneano (a camada interna da córnea, que não se regenera).5
Uma revisão publicada na Clinical Ophthalmology em 2024 aponta outros cenários em que a técnica tem vantagem documentada: cataratas muito densas e casos que demandam alta precisão no posicionamento da lente intraocular, como implantes multifocais, tóricos e de foco estendido em pacientes que buscam independência do óculos.4
Em linguagem prática: para a cirurgia de catarata rotineira em olho sem complicações, a diferença de desfecho entre laser e faco convencional é pequena. Em casos selecionados, o laser oferece uma margem de segurança adicional.4
Os sistemas robóticos mais autônomos
Além do FLACS, que é laser guiado por OCT mas ainda controlado pelo cirurgião em etapas-chave, pesquisadores vêm desenvolvendo plataformas com maior grau de autonomia.
Em dezembro de 2025, a Universidade da Califórnia (UCLA) reportou a primeira série de cirurgias de catarata com assistência robótica em humanos: 10 pacientes, sem eventos adversos.7 O sistema opera a partir de um console cirúrgico com braços robóticos, sobreposição de imagem em tempo real e retorno tátil ao cirurgião.
Uma revisão sistemática publicada no periódico Translational Vision Science & Technology em junho de 2024, analisando 12 estudos sobre robótica cirúrgica ocular, chegou a uma conclusão cautelosa: "a cirurgia assistida por robô ainda não demonstrou benefícios significativos sobre a prática cirúrgica padrão."3 Em dois dos três ensaios analisados, os sistemas robóticos levaram significativamente mais tempo de preparo e procedimento do que a cirurgia manual, e os desfechos clínicos foram comparáveis. Os autores apontam que treinamento adicional e integração técnica são necessários antes de qualquer ganho real ao paciente.3
O limite que precisa ser dito: custo
A boa notícia técnica esbarra em uma barreira concreta. Um estudo do grupo FEMCAT publicado no JAMA Ophthalmology em 2023 avaliou 870 pacientes randomizados e calculou que a cirurgia com FLACS custou em média o dobro da faco convencional: R$ 6.558 (€1.124)* contra R$ 3.301 (€565) por procedimento, com qualidade de vida medida em QALYs (anos de vida ajustados por qualidade) praticamente idêntica entre os grupos (0,788 vs 0,792).2 O custo incremental por QALY ganho ficou fora da faixa considerada custo-efetiva mesmo pelos critérios europeus mais generosos.2
No Brasil, o FLACS não é oferecido pelo SUS. O sistema público priorizou expandir o acesso à faco convencional, que já é excelente, e ainda enfrenta filas em várias regiões. A tecnologia laser e robótica fica, por ora, restrita à saúde suplementar e ao setor privado. A precisão existe, mas o acesso é desigual.
O que isso muda na prática
Para quem vai fazer ou já agendou uma cirurgia de catarata:
- A faco-emulsificação convencional, quando realizada por cirurgião experiente, tem resultados excelentes e é o padrão de cuidado mundial.
- O FLACS oferece vantagens em casos específicos (cataratas densas, baixa contagem endotelial, implantes de precisão) e pode ser discutido com o cirurgião quando disponível.
- Perguntar ao seu médico se você é um candidato para laser não é errado, mas não há razão para recusar uma cirurgia convencional bem-indicada por isso.
- Sistemas robóticos mais autônomos ainda estão em fase de desenvolvimento e validação clínica. Não estão disponíveis na prática clínica rotineira.
A catarata continua sendo uma das causas mais tratáveis de cegueira no mundo. A tecnologia caminha na direção certa. O passo seguinte é democratizar o acesso ao que já funciona.
*Cotação aproximada de R$ 5,84/€ em 30 de abril de 2026.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Em caso de dúvidas, procure um oftalmologista.
