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Robótica em Saúde

Níveis de autonomia em cirurgia robótica: o que cada nível significa e onde estamos hoje

Existe uma escala de 0 a 5 para medir o quanto um robô cirúrgico age sozinho. Entender onde os sistemas atuais se encaixam desfaz uma confusão muito comum: "cirurgia robótica" não significa que o robô opera por conta própria.

Por Dr. Lucca Ortolan Hansen· 13 de julho de 2026· Revisado por Lucca Ortolan Hansen
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Robô cirúrgico Da Vinci Xi em sala de cirurgia de hospital francês
Um robô Da Vinci Xi no Centro Hospitalar de Vesoul, França. Sistemas como este operam nos níveis 0-1 de autonomia: o cirurgião controla cada movimento em tempo real, e o robô não age por conta própria. Foto: A.BourgeoisP / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Quando alguém menciona "cirurgia robótica", a imagem que surge é de um robô inteligente tomando decisões. Na prática, nenhum dos sistemas usados em cirurgias clínicas hoje faz isso. O robô se move porque o cirurgião manda. Cada gesto do médico no console se traduz em um gesto dos instrumentos na mesa de operação.

Mas existe, sim, uma escala formal para medir o quanto um sistema robótico age de forma autônoma. Ela vai do nível 0 ao nível 5, inspirada na mesma lógica dos carros autônomos, e serve como referência técnica, regulatória e ética para a área.1 Entender essa escala ajuda a ler as notícias sobre robótica cirúrgica com mais precisão.

De onde vem essa escala

Em 2017, um artigo publicado na revista Science Robotics propôs um sistema de classificação para a autonomia de robôs médicos. A ideia central era simples: antes de regular, precisamos conseguir descrever exatamente o quanto um sistema age por conta própria.1 A escala foi inspirada nos níveis de automação de veículos (SAE J3016, a mesma referência usada quando se fala em carro "nível 2" ou "nível 4").

Uma revisão ampla publicada em 2021 na Annual Review of Control, Robotics, and Autonomous Systems aprofundou essa discussão, mapeando as tecnologias que habilitam cada nível e onde a pesquisa estava avançando.2

Em 2024, uma revisão sistemática de todos os robôs cirúrgicos com aprovação do FDA colocou números concretos na conversa.4

Os seis níveis, em linguagem simples

A escala não tem cinco níveis: tem seis, do 0 ao 5.12

  • Nível 0 (sem autonomia): O robô é uma ferramenta mecânica. Cada movimento depende diretamente do cirurgião. Sem ação humana contínua, nada acontece. É o modo de operação dos grandes sistemas de teleoperação, como o da Vinci.
  • Nível 1 (assistência robótica): O robô ajuda a executar a tarefa mas ainda sob controle contínuo do cirurgião. Pode, por exemplo, filtrar tremores da mão ou limitar movimentos para uma zona segura. O médico decide tudo; o robô refina a execução. A maioria dos sistemas comerciais atuais fica aqui.
  • Nível 2 (autonomia de tarefa): O robô executa uma tarefa cirúrgica específica de forma independente, dentro de parâmetros definidos pelo cirurgião. A decisão de fazer a tarefa e de quando fazê-la ainda é humana; a execução técnica pode ser do sistema. Exemplos em pesquisa incluem suturas automatizadas em tecidos moles.
  • Nível 3 (autonomia condicional): O sistema tem capacidade de perceber o que está acontecendo no campo cirúrgico, criar um plano e ajustá-lo durante a execução. Pode propor uma estratégia personalizada para aquele paciente e pedir aprovação antes de agir. Três sistemas com aprovação do FDA chegaram a este nível, todos em contextos específicos, como planejamento em ortopedia e urologia.4
  • Nível 4 (alta autonomia): O sistema interpreta dados pré-operatórios e intraoperatórios, monta um plano composto de várias etapas e o executa, adaptando em tempo real se necessário. Hoje, isso existe apenas em laboratório.
  • Nível 5 (autonomia total): O robô realiza a cirurgia sem nenhuma participação humana. Não existe nenhum sistema próximo disso no horizonte clínico realista.

Onde estão os sistemas usados hoje

Uma revisão sistemática de 49 robôs cirúrgicos aprovados pelo FDA, publicada em 2024 no NPJ Digital Medicine, chegou a um resultado direto: 86% dos sistemas estão no nível 1.4 Nenhum chegou ao nível 4 ou 5.

O da Vinci (Intuitive Surgical), o Hugo (Medtronic) e o Versius (CMR Surgical) são sistemas de teleoperação. O cirurgião senta no console, manipula controles e cada movimento se replica nos braços robóticos na mesa.2 Eles oferecem visão 3D ampliada, redução de tremor e instrumentos articulados que a laparoscopia convencional não tem. Mas não decidem, não planejam e não percebem o campo cirúrgico de forma autônoma.

Isso não é uma crítica. É a descrição precisa de como eles funcionam, e por que são seguros para uso clínico amplo.

O que está aparecendo nos níveis 2 e 3

A pesquisa está avançando no nível 2, em tarefas muito específicas. O exemplo mais citado é o STAR (Smart Tissue Autonomous Robot), desenvolvido na Universidade Johns Hopkins. Em 2022, o sistema realizou anastomose intestinal (a conexão entre dois segmentos do intestino) em suínos de forma laparoscópica, com supervisão mínima do cirurgião.3

O modo de operação do STAR merece atenção: após o cirurgião expor as bordas do tecido, o robô criava um plano de sutura, pedia aprovação do operador, e então executava as suturas de forma independente. Se o tecido se movia além de um limite definido, o sistema pausava e solicitava nova aprovação humana antes de continuar.3 O resultado foi consistência maior do que a técnica manual, com 83% das suturas colocadas de forma autônoma.

Isso é nível 2 a 3 em contexto experimental, não clínico. Não estava disponível para pacientes, e a pesquisa foi conduzida com suínos.

Para saber onde especificamente os níveis 2-3 estão aparecendo em contextos como oftalmologia e odontologia, vale conferir o que está sendo desenvolvido em cirurgia autônoma nessas especialidades.

Por que níveis mais altos levantam perguntas difíceis

Quando o sistema age de forma mais autônoma, algumas perguntas que antes tinham respostas simples ficam complicadas.1

A primeira é sobre responsabilidade. Se um robô no nível 3 propõe um plano e o cirurgião aprova, e o resultado não é o esperado, de quem é a responsabilidade? Do médico que aprovou? Do fabricante que treinou o sistema? Do hospital que o adquiriu? Não existe, hoje, um marco regulatório claro para isso.

A segunda é sobre vigilância humana. Um paradoxo real: quanto mais o robô age sozinho, mais o cirurgião pode se desfocar do que está acontecendo na mesa. Manter atenção em um processo que raramente pede intervenção é cognitivamente difícil. Em aviação, isso é chamado de "problema do monitoramento passivo", e está bem documentado como fonte de erro.

A terceira é sobre treinamento. Um cirurgião que opera predominantemente com sistemas de alta autonomia pode perder habilidade para intervir manualmente quando o sistema falha ou quando o paciente precisa de uma abordagem diferente.

O FDA tem caminhado com cautela nessa direção. As orientações mais recentes sobre dispositivos com inteligência artificial reconhecem que sistemas adaptativos precisam de supervisão continuada além da aprovação inicial, e que os fabricantes precisam descrever com antecedência que tipos de mudanças são permitidas ao sistema após o uso clínico começar.5

O que isso muda para o paciente

Entender essa escala tem valor prático para quem vai passar por uma cirurgia robótica.

A primeira conclusão é tranquilizadora: na cirurgia robótica clínica padrão, um ser humano treinado está no controle de tudo. O robô não improvisa. O cirurgião que você conheceu na consulta é quem está operando, com instrumentos que ampliam sua precisão, não substituem seu julgamento.

A segunda é sobre curiosidade informada. Quando uma notícia disser que "um robô fez uma cirurgia sozinho", a pergunta útil é: em qual contexto? Em animais ou humanos? Com que nível de supervisão? Você vai perceber que a maioria das manchetes impressionantes descreve experimentos em nível 2-3, não sistemas em uso clínico.

A terceira é sobre a conversa com o cirurgião. Se você tem curiosidade sobre o sistema usado no seu caso, perguntar "este sistema usa alguma função autônoma, ou você controla tudo manualmente?" é uma pergunta razoável e informada.

O da Vinci que você verá no corredor do hospital, os artigos sobre o Hugo e o Versius e os robôs em cirurgia de catarata: todos operam nos níveis 0-1. São ferramentas sofisticadas nas mãos de um cirurgião, não agentes independentes na mesa de operação.


Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Decisões sobre cirurgia, robótica ou não, devem ser tomadas em conjunto com o cirurgião responsável pelo seu caso, levando em conta sua situação clínica específica.

Fontes

  1. Medical robotics: Regulatory, ethical, and legal considerations for increasing levels of autonomy· paper
  2. Autonomy in Surgical Robotics· paper
  3. Autonomous robotic laparoscopic surgery for intestinal anastomosis· paper
  4. Levels of autonomy in FDA-cleared surgical robots: a systematic review· paper
  5. Marketing Submission Recommendations for a Predetermined Change Control Plan for Artificial Intelligence-Enabled Device Software Functions· regulator

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