Quando alguém fala em "robô cirurgião", a imagem mental costuma ser a de braços mecânicos trabalhando no abdômen enquanto um cirurgião senta em um console distante. Isso existe e é comum na urologia e na ginecologia, mas o robô, nesses casos, não toma nenhuma decisão sozinho: ele reproduz cada gesto da mão do cirurgião, em escala reduzida. É teleoperação, não autonomia.
Nos dentes e nos olhos, a história é diferente. Nesses campos, robôs já executam etapas específicas de procedimentos com um grau de independência que vai além do simples espelho de movimentos. Para entender por que isso acontece justamente aqui, ajuda primeiro entender o que distingue esses dois campos do resto da cirurgia.
Por que dente e olho avançaram mais
A cirurgia abdominal lida com tecidos moles que se movem, respiram, se deformam e variam de pessoa para pessoa. Um fígado não está no mesmo lugar depois de cada insuflação de gás. O intestino se desloca. A textura muda a cada incisão. Isso exige que o robô responda a imprevistos o tempo todo. Por enquanto, isso ainda depende do julgamento humano.
A odontologia e a oftalmologia operam em um ambiente diferente. Os dentes são estruturas rígidas, com posição conhecida ao milímetro graças a tomografias computadorizadas de cone beam (CBCT) feitas antes do procedimento. O olho é uma câmara fechada, com anatomia altamente padronizada e campos de trabalho microscópicos onde a mão humana literalmente treme com mais amplitude do que o erro aceitável. Esses dois contextos (alvo rígido e bem mapeado, campo pequeno e previsível) são exatamente as condições em que sistemas robóticos conseguem assumir tarefas com segurança, de forma supervisionada.24
Para quem quiser entender a escala formal de autonomia cirúrgica robótica, vale ler o artigo sobre os cinco níveis de autonomia em cirurgia robótica, que cobre desde teleoperation (nível 0-1) até cirurgia totalmente autônoma (nível 5).
Na odontologia: o Yomi e o primeiro procedimento autônomo
O sistema Yomi, desenvolvido pela empresa americana Neocis, recebeu liberação do FDA em março de 2017 como o primeiro e único sistema robótico para cirurgia de implante dentário nos Estados Unidos.5 Não é um robô que opera sozinho: é o que se chama de sistema semi-ativo com guia háptico.
O que isso significa na prática é que o cirurgião segura o instrumento normalmente, mas o braço robótico impõe limites físicos reais ao movimento. Se a broca começar a desviar da trajetória planejada no pré-operatório, o sistema aplica resistência mecânica: o cirurgião sente um "freio" antes de sair do caminho correto. A posição, a angulação e a profundidade da perfuração ficam restringidas dentro de um envelope de segurança calculado a partir do planejamento em tomografia computadorizada.3
Os dados de precisão dão uma ideia do impacto disso. Uma meta-análise publicada no periódico BMC Oral Health em 2024, que analisou 67 estudos com 5.673 implantes, encontrou que sistemas robóticos como o Yomi produziram desvios de 0,81 mm na plataforma do implante e 0,77 mm no ápice, com angulação de 1,71 graus. Para comparar: cirurgia guiada por molde estático produziu desvios de 1,11 mm e 1,44 mm, com 3,58 graus de angulação.2 A diferença é relevante em procedimentos onde um desvio de 2 a 3 milímetros já pode significar uma complicação anatômica.
Em paralelo, uma startup americana chamada Perceptive anunciou em julho de 2024 um marco diferente: o primeiro procedimento odontológico completamente autônomo realizado em um ser humano, sem intervenção do operador durante a execução.6 O procedimento foi preparação de coroa (etapa em que o dente é desgastado para receber a prótese). A diferença para o Yomi é fundamental: a Perceptive desenvolveu um sistema que, após o cirurgião aprovar o plano digital gerado por inteligência artificial, executa o desgaste por conta própria, usando um escâner intraoral 3D com tomografia de coerência óptica (OCT) para mapear o dente e os nervos ao redor. Segundo o anúncio da empresa, o tempo total ficou em 15 minutos, contra duas horas ou mais com técnica convencional.6 O sistema ainda aguarda liberação regulatória nos EUA e os testes foram realizados no exterior.
O ponto de honestidade aqui é importante: são contextos muito diferentes. O Yomi tem clearance do FDA e é usado clinicamente. O sistema da Perceptive é uma demonstração técnica promissora, sem aprovação regulatória nos países onde seria usado amplamente, e com resultados ainda preliminares.
Na oftalmologia: o problema do tremor humano
O interior do olho tem uma escala diferente. A retina mede menos de um centímetro quadrado. Os instrumentos cirúrgicos vitreoretinianos têm entre 0,5 mm e 0,9 mm de diâmetro. E o tremor fisiológico das mãos humanas em repouso é de cerca de 100 micrômetros, maior do que o erro aceitável em muitas manobras dentro do olho.4
É esse cenário que motivou o desenvolvimento do sistema Preceyes, um robô cirúrgico para retina desenvolvido na Holanda e testado pela primeira vez em seres humanos em um ensaio clínico na Universidade de Oxford, em 2018. O estudo, publicado na Nature Biomedical Engineering, acompanhou 12 pacientes com necessidade de dissecção de membrana epirretiniana ou injeção subretiniana de droga. Seis foram operados com assistência do Preceyes, seis com técnica manual convencional.1
Os resultados foram semelhantes nos dois grupos em termos de desfecho visual e segurança, sem eventos adversos relatados em nenhum dos lados. A diferença estava na execução: o robô levou mais tempo (55 minutos no total contra 31 no grupo manual, e 4 minutos para elevar a membrana contra 1 minuto e 20 segundos manualmente), mas a precisão das manobras dentro do olho foi mantida mesmo em gestos que seriam muito difíceis para mãos humanas sem estabilização mecânica.1
O Preceyes não é autônomo: o cirurgião opera um controle manual que traduz movimentos amplos em micromovimentos precisos dentro do olho, com filtragem de tremor e escalonamento de movimento. A autonomia aqui é de estabilização e escala, não de decisão.4 O sistema recebeu marcação CE (certificação europeia) em 2019 e foi adquirido pela Zeiss em 2022. Não tem aprovação do FDA nos EUA até o momento.
O laser de femtossegundo usado na cirurgia de catarata é outra forma de automação que já existe há mais de uma década: a máquina executa incisões, abre a cápsula anterior do cristalino e fragmenta o núcleo a partir de um plano digital, sem que a mão do cirurgião guie o corte. Mas o cirurgião revisa e aprova cada etapa, e a evidência acumulada sobre cirurgia de catarata com laser mostra resultados equivalentes à técnica convencional bem-feita na maioria dos pacientes.
O que une esses exemplos
Tanto no dente quanto no olho, a autonomia que funciona hoje é estreita, supervisionada e específica para tarefas. O Yomi assume o controle da trajetória da broca, não da cirurgia inteira. O Preceyes estabiliza e escala, não decide o que fazer. O sistema da Perceptive executa o desgaste após aprovação do plano pelo cirurgião, e ainda está fora do uso clínico rotineiro.
Nenhum desses sistemas opera de forma independente nem substitui o julgamento do profissional. O que eles fazem é reduzir a variabilidade em tarefas mecânicas onde a anatomia é conhecida e o espaço é pequeno, exatamente as condições onde o erro humano é mais difícil de evitar e mais fácil de prevenir com restrição física ou com escalonamento de movimento.234
O que isso ainda não é
Nenhum desses sistemas decide sobre o plano cirúrgico. Nenhum diagnostica, seleciona o paciente, escolhe o implante ou define se uma injeção subretiniana é indicada. Essas decisões continuam sendo do cirurgião.
Também não há, por enquanto, evidência robusta de que o resultado clínico final para o paciente seja melhor do que com técnica convencional bem-executada em todos os casos. O que há são ganhos de precisão em tarefas específicas e, nos casos do robô dental, redução de desvio de trajetória que pode ter relevância real em anatomias desafiadoras.
O acesso também é seletivo. O Yomi está disponível em clínicas privadas nos EUA que adquiriram o sistema, não é tecnologia amplamente distribuída. O Preceyes é CE-marcado, mas disponível em um número pequeno de centros europeus especializados. No Brasil, nenhum dos dois está em uso clínico rotineiro.
O que muda para o paciente
A mensagem prática é mais simples do que o hype sugere. Se você vai fazer um implante dentário ou uma cirurgia vitroretiniana e seu cirurgião mencionar assistência robótica, vale perguntar exatamente o que o sistema faz, o que o cirurgião continua controlando, se há dados clínicos para aquela indicação específica e se o uso muda algo concreto no seu caso, não só na ferramenta usada.
Robôs não transformam um cirurgião inexperiente em expert, e não eliminam a necessidade de planejamento cuidadoso, anatomia respeitada e decisão humana. Eles reduzem a variabilidade em alguns gestos, no contexto certo. Que isso chegue ao paciente como benefício real depende de como o conjunto todo é executado.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Procedimentos odontológicos ou oftalmológicos devem ser avaliados com o profissional de saúde especializado, que considera a indicação, o histórico clínico e as condições de cada paciente.
