sossego.health

Olhos Abertos

iDose TR: implante para glaucoma libera remédio dentro do olho por meses

A FDA aprovou a reinserção do iDose TR em janeiro de 2026 com base em três anos de dados de segurança. O dispositivo tenta resolver um problema antigo: a dificuldade de manter colírio diário por anos.

Por Dr. Lucca Ortolan Hansen· 08 de junho de 2026· Revisado por Lucca Ortolan Hansen
Risco médio

Achou útil? Compartilhe com quem precisa ler.

Oftalmologista examinando o olho de um paciente com biomicroscópio de lâmpada de fenda
O exame oftalmológico regular é essencial no acompanhamento do glaucoma, seja com colírio, seja com dispositivos de liberação prolongada. Foto: Annie Spratt / Unsplash

Existe um problema silencioso no tratamento do glaucoma: o colírio funciona, mas depende de um hábito diário que muita gente não consegue manter por anos a fio. Um ensaio de fase 3 com 590 pacientes mostrou que esse problema tem peso real: ao final de 12 meses, mais de 80% dos pacientes que receberam um implante intracameral de liberação prolongada precisaram de menos medicação do que antes, contra menos de 25% do grupo que usava colírio convencional de timolol.2

O dispositivo em questão é o iDose TR, fabricado pela Glaukos. Em dezembro de 2023, ele se tornou o primeiro implante de liberação sustentada de fármaco aprovado pela FDA americana para glaucoma. Em 28 de janeiro de 2026, a mesma agência deu um passo a mais: aprovou o suplemento do pedido de novo medicamento (NDA) que permite ao médico reinserir o dispositivo quando o efeito começa a cair, com base em dados acumulados ao longo de três anos de acompanhamento.1

O que é o iDose TR e como funciona

O iDose TR é um implante do tamanho de um grão de arroz, fabricado em titânio médico, que é inserido diretamente dentro do olho durante um procedimento rápido no consultório ou no bloco cirúrgico. O ponto de entrada é a malha trabecular (a região de drenagem do olho, no ângulo anterior), e o dispositivo fica alojado no tecido escleral.1

Uma vez dentro do olho, ele libera travoprosta (um prostanoide, a mesma classe farmacológica de colírios como Travatan e Lumigan) de forma contínua, 24 horas por dia, sete dias por semana, por meio de um mecanismo de difusão controlada por membrana.1 O implante contém 75 mcg de travoprosta em formulação sem conservantes.

A ideia central é simples: em vez de o paciente lembrar de pingar o colírio todo dia, o olho recebe o medicamento por conta própria, sem depender de memória, de destreza manual ou de rotina.

O que os dados clínicos mostram

O ensaio de fase 3 (NCT03519386), publicado em abril de 2024 na revista Ophthalmology and Therapy, acompanhou 590 pacientes em 45 centros por 12 meses.2 O braço principal do estudo (SE-implant, de liberação lenta) demonstrou não inferioridade frente ao timolol em colírio para o controle da pressão intraocular.2

O dado que mais chama atenção não é a queda de pressão em si, mas o impacto na necessidade de outros remédios. Entre pacientes que já usavam medicação para glaucoma antes de entrar no estudo, 83,5% dos que receberam o implante de liberação lenta precisaram de menos medicação ao final de 12 meses. No grupo colírio timolol, esse número foi de 23,9% (p < 0,0001).2

Um estudo do mundo real com 65 pacientes, publicado em abril de 2026 na revista Life, acompanhou implantações isoladas do iDose TR ao longo de 12 meses.3 A pressão intraocular média caiu de 20,0 mmHg para 14,0 mmHg (redução de 28%), e 92,3% dos olhos atingiram pressão abaixo de 18 mmHg.3 Ao final do seguimento, 89,2% dos olhos estavam sem nenhuma medicação adicional para glaucoma.3

Quanto tempo o medicamento dura

Um estudo publicado em maio de 2025 na Ophthalmology and Therapy analisou implantes retirados de pacientes ao longo de dois anos e mediu quanto travoprosta ainda restava em cada dispositivo.4 Aos três meses, havia cerca de 79% do fármaco original; aos 12 meses, cerca de 50%; aos 24 meses, cerca de 16%.4 Ainda assim, as concentrações de travoprosta no humor aquoso (o líquido dentro do olho) permaneceram acima do limiar eficaz durante toda a janela de dois anos, o que ajuda a explicar a continuidade do efeito.4

É essa cinética de depleção ao longo de dois anos que criou a necessidade clínica de uma opção de reinserção. E foi justamente isso que a FDA aprovou em janeiro de 2026: a possibilidade de o médico remover o implante original e colocar um novo, quando clinicamente indicado, desde que o paciente tenha densidade de células endoteliais da córnea dentro de parâmetros saudáveis.1

Os dados de segurança da reinserção, obtidos em um ensaio de troca, mostraram que o segundo implante foi seguro e bem tolerado ao longo de 12 meses de avaliação, sem perda clinicamente significativa de células corneanas.1

Pra quem o iDose TR faz mais sentido

O glaucoma de ângulo aberto é a forma mais comum da doença. Ele progride de forma silenciosa, destruindo fibras do nervo óptico ao longo de anos, e a principal ferramenta de controle disponível hoje ainda é a redução da pressão intraocular, seja com colírio, cirurgia ou laser.2

O problema é que o tratamento com colírio exige adesão perfeita em uma doença que raramente causa dor ou sintoma percebível. Estudos sobre adesão a colírios para glaucoma mostram, de forma consistente, que uma parcela relevante dos pacientes não consegue manter o regime prescrito por conta própria, seja por esquecimento, por dificuldade em aplicar o colírio, por efeitos colaterais locais como irritação ou olho vermelho, ou por simplesmente não perceber diferença no dia a dia.

O iDose TR resolve exatamente esse ponto: ele retira a adesão diária da equação para um período de meses. Um estudo publicado em dezembro de 2025 na mesma revista mostrou que a inserção do dispositivo em ambiente ambulatorial (sem bloco cirúrgico convencional) foi bem-sucedida em 100% dos 37 pacientes avaliados, sem eventos adversos oculares graves ao longo de 12 meses de acompanhamento.5

Isso sugere que o procedimento pode ser incorporado de forma relativamente acessível na rotina clínica de um consultório de oftalmologia estruturado, sem necessidade de centro cirúrgico de alta complexidade.

Quem provavelmente não é candidato imediato

O implante não é para qualquer paciente com glaucoma. As condições básicas incluem ter glaucoma de ângulo aberto ou hipertensão ocular, ter córnea com células endoteliais em número adequado (para tolerar a reinserção futura) e não apresentar contraindicações ao travoprosta.12 Pacientes com glaucoma de ângulo fechado, com histórico de uveíte ou com córneas já comprometidas podem não ser candidatos.

Também vale destacar que o dispositivo não substitui cirurgia nos casos de glaucoma avançado que não responde bem à redução de pressão com medicação. Nesses cenários, procedimentos como trabeculectomia, implante de tubo ou cirurgias minimamente invasivas (MIGS) continuam tendo papel central.

E no Brasil?

Até a data de publicação deste artigo, o iDose TR não tem registro na ANVISA, a agência regulatória brasileira. O dispositivo está aprovado nos Estados Unidos desde dezembro de 2023, com a expansão para reinserção adicionada em janeiro de 2026, mas o processo de aprovação regulatória no Brasil é independente e conduzido separadamente.1

Isso significa que pacientes brasileiros ainda não têm acesso regular ao dispositivo no sistema de saúde convencional. O horizonte para um eventual pedido de registro na ANVISA vai depender da estratégia comercial da empresa para o mercado local, processo que costuma levar meses a anos após a aprovação americana.

O que muda na prática

Para o paciente com glaucoma hoje, a mensagem principal é que existe um caminho sendo pavimentado: dispositivos que entregam o medicamento diretamente no olho, por meses, sem depender de hábito diário. Isso pode mudar o jogo especialmente para pessoas que têm dificuldade genuína com o regime de colírio, seja por vida agitada, por dificuldade visual ou motora para aplicar o colírio, ou por efeitos colaterais frequentes dos conservantes presentes em muitas formulações de colírio.

Essa tecnologia ainda não está disponível no Brasil, mas o caminho que ela aponta é relevante. A conversa sobre adesão ao tratamento não vai embora. Ela segue sendo um dos maiores desafios práticos no manejo do glaucoma, e dispositivos como o iDose TR representam uma das apostas mais concretas da indústria para resolvê-la com farmacologia, em vez de depender só de disciplina.

Se você tem glaucoma ou suspeita de pressão alta no olho, a orientação é simples: procure um oftalmologista, mantenha o acompanhamento regular e fale abertamente sobre qualquer dificuldade que você tenha com a medicação atual. Isso ajuda o médico a adaptar o tratamento ao que funciona melhor para você, dentro do que está disponível agora.


Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual.

Fontes

  1. Glaukos Announces US FDA Approval of NDA Supplement Allowing for Re-Administration of iDose TR· regulator
  2. Travoprost Intracameral Implant for Open-Angle Glaucoma or Ocular Hypertension: 12-Month Results of a Randomized, Double-Masked Trial· paper
  3. Twelve-Month Outcomes of Standalone Travoprost Intracameral Implant in Glaucoma or Ocular Hypertension· paper
  4. Aqueous Humor Concentrations of Travoprost Free Acid and Residual Drug in Explanted Implants from Patients Administered a Travoprost Intracameral Implant· paper
  5. Administration of the Travoprost Intracameral Implant in an Office-Based Surgery Setting· paper

Comentários

Compartilhe sua experiência. Comentários passam por moderação automática.

Verificando sua sessão...

Carregando comentários...