Existe um problema silencioso no tratamento do glaucoma: o colírio funciona, mas depende de um hábito diário que muita gente não consegue manter por anos a fio. Um ensaio de fase 3 com 590 pacientes mostrou que esse problema tem peso real: ao final de 12 meses, mais de 80% dos pacientes que receberam um implante intracameral de liberação prolongada precisaram de menos medicação do que antes, contra menos de 25% do grupo que usava colírio convencional de timolol.2
O dispositivo em questão é o iDose TR, fabricado pela Glaukos. Em dezembro de 2023, ele se tornou o primeiro implante de liberação sustentada de fármaco aprovado pela FDA americana para glaucoma. Em 28 de janeiro de 2026, a mesma agência deu um passo a mais: aprovou o suplemento do pedido de novo medicamento (NDA) que permite ao médico reinserir o dispositivo quando o efeito começa a cair, com base em dados acumulados ao longo de três anos de acompanhamento.1
O que é o iDose TR e como funciona
O iDose TR é um implante do tamanho de um grão de arroz, fabricado em titânio médico, que é inserido diretamente dentro do olho durante um procedimento rápido no consultório ou no bloco cirúrgico. O ponto de entrada é a malha trabecular (a região de drenagem do olho, no ângulo anterior), e o dispositivo fica alojado no tecido escleral.1
Uma vez dentro do olho, ele libera travoprosta (um prostanoide, a mesma classe farmacológica de colírios como Travatan e Lumigan) de forma contínua, 24 horas por dia, sete dias por semana, por meio de um mecanismo de difusão controlada por membrana.1 O implante contém 75 mcg de travoprosta em formulação sem conservantes.
A ideia central é simples: em vez de o paciente lembrar de pingar o colírio todo dia, o olho recebe o medicamento por conta própria, sem depender de memória, de destreza manual ou de rotina.
O que os dados clínicos mostram
O ensaio de fase 3 (NCT03519386), publicado em abril de 2024 na revista Ophthalmology and Therapy, acompanhou 590 pacientes em 45 centros por 12 meses.2 O braço principal do estudo (SE-implant, de liberação lenta) demonstrou não inferioridade frente ao timolol em colírio para o controle da pressão intraocular.2
O dado que mais chama atenção não é a queda de pressão em si, mas o impacto na necessidade de outros remédios. Entre pacientes que já usavam medicação para glaucoma antes de entrar no estudo, 83,5% dos que receberam o implante de liberação lenta precisaram de menos medicação ao final de 12 meses. No grupo colírio timolol, esse número foi de 23,9% (p < 0,0001).2
Um estudo do mundo real com 65 pacientes, publicado em abril de 2026 na revista Life, acompanhou implantações isoladas do iDose TR ao longo de 12 meses.3 A pressão intraocular média caiu de 20,0 mmHg para 14,0 mmHg (redução de 28%), e 92,3% dos olhos atingiram pressão abaixo de 18 mmHg.3 Ao final do seguimento, 89,2% dos olhos estavam sem nenhuma medicação adicional para glaucoma.3
Quanto tempo o medicamento dura
Um estudo publicado em maio de 2025 na Ophthalmology and Therapy analisou implantes retirados de pacientes ao longo de dois anos e mediu quanto travoprosta ainda restava em cada dispositivo.4 Aos três meses, havia cerca de 79% do fármaco original; aos 12 meses, cerca de 50%; aos 24 meses, cerca de 16%.4 Ainda assim, as concentrações de travoprosta no humor aquoso (o líquido dentro do olho) permaneceram acima do limiar eficaz durante toda a janela de dois anos, o que ajuda a explicar a continuidade do efeito.4
É essa cinética de depleção ao longo de dois anos que criou a necessidade clínica de uma opção de reinserção. E foi justamente isso que a FDA aprovou em janeiro de 2026: a possibilidade de o médico remover o implante original e colocar um novo, quando clinicamente indicado, desde que o paciente tenha densidade de células endoteliais da córnea dentro de parâmetros saudáveis.1
Os dados de segurança da reinserção, obtidos em um ensaio de troca, mostraram que o segundo implante foi seguro e bem tolerado ao longo de 12 meses de avaliação, sem perda clinicamente significativa de células corneanas.1
Pra quem o iDose TR faz mais sentido
O glaucoma de ângulo aberto é a forma mais comum da doença. Ele progride de forma silenciosa, destruindo fibras do nervo óptico ao longo de anos, e a principal ferramenta de controle disponível hoje ainda é a redução da pressão intraocular, seja com colírio, cirurgia ou laser.2
O problema é que o tratamento com colírio exige adesão perfeita em uma doença que raramente causa dor ou sintoma percebível. Estudos sobre adesão a colírios para glaucoma mostram, de forma consistente, que uma parcela relevante dos pacientes não consegue manter o regime prescrito por conta própria, seja por esquecimento, por dificuldade em aplicar o colírio, por efeitos colaterais locais como irritação ou olho vermelho, ou por simplesmente não perceber diferença no dia a dia.
O iDose TR resolve exatamente esse ponto: ele retira a adesão diária da equação para um período de meses. Um estudo publicado em dezembro de 2025 na mesma revista mostrou que a inserção do dispositivo em ambiente ambulatorial (sem bloco cirúrgico convencional) foi bem-sucedida em 100% dos 37 pacientes avaliados, sem eventos adversos oculares graves ao longo de 12 meses de acompanhamento.5
Isso sugere que o procedimento pode ser incorporado de forma relativamente acessível na rotina clínica de um consultório de oftalmologia estruturado, sem necessidade de centro cirúrgico de alta complexidade.
Quem provavelmente não é candidato imediato
O implante não é para qualquer paciente com glaucoma. As condições básicas incluem ter glaucoma de ângulo aberto ou hipertensão ocular, ter córnea com células endoteliais em número adequado (para tolerar a reinserção futura) e não apresentar contraindicações ao travoprosta.12 Pacientes com glaucoma de ângulo fechado, com histórico de uveíte ou com córneas já comprometidas podem não ser candidatos.
Também vale destacar que o dispositivo não substitui cirurgia nos casos de glaucoma avançado que não responde bem à redução de pressão com medicação. Nesses cenários, procedimentos como trabeculectomia, implante de tubo ou cirurgias minimamente invasivas (MIGS) continuam tendo papel central.
E no Brasil?
Até a data de publicação deste artigo, o iDose TR não tem registro na ANVISA, a agência regulatória brasileira. O dispositivo está aprovado nos Estados Unidos desde dezembro de 2023, com a expansão para reinserção adicionada em janeiro de 2026, mas o processo de aprovação regulatória no Brasil é independente e conduzido separadamente.1
Isso significa que pacientes brasileiros ainda não têm acesso regular ao dispositivo no sistema de saúde convencional. O horizonte para um eventual pedido de registro na ANVISA vai depender da estratégia comercial da empresa para o mercado local, processo que costuma levar meses a anos após a aprovação americana.
O que muda na prática
Para o paciente com glaucoma hoje, a mensagem principal é que existe um caminho sendo pavimentado: dispositivos que entregam o medicamento diretamente no olho, por meses, sem depender de hábito diário. Isso pode mudar o jogo especialmente para pessoas que têm dificuldade genuína com o regime de colírio, seja por vida agitada, por dificuldade visual ou motora para aplicar o colírio, ou por efeitos colaterais frequentes dos conservantes presentes em muitas formulações de colírio.
Essa tecnologia ainda não está disponível no Brasil, mas o caminho que ela aponta é relevante. A conversa sobre adesão ao tratamento não vai embora. Ela segue sendo um dos maiores desafios práticos no manejo do glaucoma, e dispositivos como o iDose TR representam uma das apostas mais concretas da indústria para resolvê-la com farmacologia, em vez de depender só de disciplina.
Se você tem glaucoma ou suspeita de pressão alta no olho, a orientação é simples: procure um oftalmologista, mantenha o acompanhamento regular e fale abertamente sobre qualquer dificuldade que você tenha com a medicação atual. Isso ajuda o médico a adaptar o tratamento ao que funciona melhor para você, dentro do que está disponível agora.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual.
