Você perdeu uma ou duas palavras no almoço de família e preferiu não pedir pra repetir. O celular na rua parece mais baixo do que antes. No cinema, as legendas viraram hábito. São sinais que a maioria das pessoas deixa acumular por anos antes de fazer qualquer coisa: custo alto, estigma e a sensação de que "ainda não é tão sério". Exatamente o tipo de subtratamento que a sossego.health existe para questionar.
Em março de 2025, a Apple ativou no Brasil dois recursos nos AirPods Pro 2 que entram diretamente nessa lacuna: um Teste de Audição e um modo Aparelho Auditivo de venda livre (OTC, do inglês over-the-counter), autorizados pela Anvisa. É a primeira vez que um fone de ouvido de consumo recebe essa autorização regulatória no país. Este guia explica o que esses recursos fazem, para quem servem e quando eles não bastam.
O que é um aparelho auditivo OTC e por que isso importa
Até 2022, comprar um aparelho auditivo nos EUA exigia receita médica e encaixe por audiologista, com preços que chegavam a US$ 5.000 o par. A FDA mudou isso em outubro de 2022 com a regra final que criou a categoria de aparelhos auditivos de venda livre para adultos com perda leve a moderada, sem prescrição e sem audiologista obrigatório.2 Em setembro de 2024, a FDA deu um passo adicional e autorizou o primeiro software de aparelho auditivo OTC da história: o recurso dos AirPods Pro 2.1
No Brasil, a Anvisa autorizou a comercialização do recurso, e ele foi ativado via atualização de software em 25 de março de 2025.3
A magnitude do problema que essa abertura regulatória tenta resolver é real: segundo o Relatório Mundial sobre Audição da Organização Mundial da Saúde, cerca de 1,57 bilhão de pessoas tinham alguma perda auditiva em 2019 (1 em cada 5 pessoas no planeta). O órgão estima que até 2050 esse número chegue a 2,45 bilhões. E existe uma lacuna de 83% entre quem precisa de serviços auditivos e quem de fato os acessa.6
O que os AirPods Pro 2 fazem na prática
Os recursos de saúde auditiva nos AirPods Pro 2 são três, todos disponíveis no Brasil a partir do iOS 18:
Teste de Audição: em cerca de cinco minutos, o usuário responde a tons de diferentes frequências e intensidades. O resultado, armazenado no app Saúde do iPhone, é um audiograma simplificado que classifica a audição como dentro da faixa esperada, leve, moderada ou acentuada em cada orelha.
Aparelho Auditivo OTC: usa o perfil do teste para amplificar sons conforme a perda detectada. O ajuste segue uma estratégia de auto-encaixe sem necessidade de audiologista, com possibilidade de ajustes finos de volume, tom e balanço.1 É o recurso regulado como dispositivo médico. A autorização da FDA se baseou em um estudo clínico com 118 adultos com perda leve a moderada, no qual o auto-encaixe alcançou benefício percebido semelhante ao de um encaixe feito por profissional.1
Amplificação de Conversa e Ambiente (Live Listen): capta o áudio ao redor e entrega nos fones em tempo real, útil em ambientes barulhentos ou em conversas à distância. Esse recurso já existia antes da autorização OTC e não exige avaliação auditiva.
Um estudo publicado no Yonsei Medical Journal em 2024 testou os AirPods Pro com o recurso de acomodação de fones em 35 adultos com perda leve a moderada.4 O resultado: ganho funcional semelhante ao de um amplificador pessoal de som (PSAP) validado, com melhora significativa no reconhecimento de palavras e de frases em ambiente ruidoso em comparação ao sem uso de dispositivo.
Há limites técnicos documentados. Uma comparação eletroácústica publicada em 2026 na revista Audiology Research testou as AirPods Pro 2 e 3 contra aparelhos auditivos convencionais encaixados pela fórmula NAL-NL2 (o padrão clínico de prescritibilidade).5 A conclusão: para perda leve ou de altas frequências, os AirPods chegam perto. Para perda moderada, o desvio da meta prescrita é clinicamente relevante, com déficits mais evidentes nas frequências de 2.000 a 4.000 Hz, justamente a faixa crítica para compreensão de fala. O acoplamento acústico dos fones também é inferior ao de aparelhos convencionais com moldes personalizados.
Funciona para perda leve, aproxima-se para perda moderada, mas não substitui aparelho convencional em perdas mais significativas.
Triagem, não diagnóstico
Assim como o smartwatch não diagnostica fibrilação atrial (apenas gera suspeita para avaliação médica), o Teste de Audição dos AirPods faz triagem, não audiometria clínica.1 A mesma lógica vale para o monitoramento de sono em wearables: o sensor estima, o clínico confirma.
Um audiograma clínico é feito em cabine acusticamente isolada, com equipamento calibrado e audiologista treinado, e pode incluir timpanometria e reflexos estapedianos. O teste dos AirPods é conveniente, mas não alcança esse nível de detalhe. Para quem nunca fez nenhuma avaliação e "acha" que ouve menos, ele oferece uma primeira referência objetiva e pode ser o empurrão para buscar avaliação completa.
Para quem faz sentido usar o modo Aparelho Auditivo OTC
O recurso tem indicação regulatória específica: adultos (18 anos ou mais) com perda auditiva leve a moderada autopercebida.13 Faz mais sentido para quem:
- Já usa AirPods Pro 2 e quer aproveitar um recurso existente no dispositivo
- Tem perda leve documentada ou suspeita e quer uma solução enquanto avalia opções definitivas
- Vive em local com acesso limitado a audiologista
- Testou o recurso e percebe benefício concreto em conversas do cotidiano
O custo é zero (o recurso é gratuito via atualização de software para quem já tem o dispositivo). AirPods Pro 2 custam em torno de R$ 2.000 no Brasil. Caro para ser adquirido só por esse recurso, mas relevante para quem já os tem.
E quem usa Android?
O recurso de Aparelho Auditivo dos AirPods é exclusivo do ecossistema Apple. Mas a saúde auditiva OTC não é.
Para Android, existem caminhos parecidos:
Sound Amplifier (Google): app nativo do Android que amplifica sons ao redor usando o microfone do celular com fones comuns, útil como ferramenta de amplificação situacional.
Petralex: app disponível para Android e iOS com calibração auditiva e amplificação personalizada, com versão gratuita.
Aparelhos auditivos OTC dedicados: desde 2022 existe no mercado americano uma categoria de aparelhos auditivos de venda livre certificados pela FDA, com marcas como Jabra Enhance e Sony CRE. No Brasil, a regulamentação específica para essa categoria ainda está sendo estabelecida, mas dispositivos de amplificação de som pessoal (PSAP) não médicos já estão disponíveis. Para comparação, os óculos com IA para baixa visão seguem trilha regulatória parecida, com aprovações chegando gradualmente por mercado.
A diferença importante: nenhuma dessas alternativas passou pelo mesmo processo de autorização regulatória que o recurso dos AirPods nos EUA ou no Brasil. Amplificação sem personalização por perfil auditivo pode ser menos precisa, ou até contraproducente se amplificar frequências que o usuário já ouve bem.
Quando parar e ir ao médico JÁ
O uso de qualquer recurso de amplificação OTC tem um risco real: adiar diagnóstico de causa tratável. Perda auditiva é sintoma, não doença. Ela pode ser causada por rolha de cerume, otite, otosclerose, neurinoma do acústico ou outras condições que têm tratamento.
Procure um otorrinolaringologista ou audiologista sem depender de recurso OTC se você tiver qualquer destes sinais:
- Perda súbita de audição (horas ou dias): emergência médica, a janela de tratamento com corticoides é curta
- Perda em apenas um ouvido (assimétrica): pode indicar causa estrutural ou neurológica
- Zumbido novo (tinnitus), especialmente se constante ou em um lado só
- Vertigem ou tontura associada à piora auditiva
- Dor de ouvido, secreção ou sensação de pressão
- Perda significativa que já interfere consistentemente em trabalho ou vida social
- Qualquer perda em criança ou adolescente (OTC é exclusivo para maiores de 18 anos)
Nesses casos, o recurso OTC não é a ferramenta certa. Usá-lo pode dar uma falsa sensação de controle enquanto a causa subjacente progride.
O que muda na prática
Se você usa AirPods Pro 2 e sente que ouve menos em conversas: faça o Teste de Audição no app Saúde (iOS 18, firmware atualizado); se o resultado indicar perda leve ou moderada, ative o Aparelho Auditivo nas configurações de Acessibilidade; use em situações reais e avalie se o benefício é concreto. Agende avaliação com audiologista em até seis meses, porque audiometria formal estabelece o baseline e monitora evolução. Se aparecer qualquer sinal de alerta listado acima, vá ao médico antes de continuar com qualquer amplificação.
Para Android: Sound Amplifier ou um PSAP ajuda em situações específicas, mas para perda que afeta o cotidiano de forma consistente, a avaliação audiológica é o caminho mais seguro antes de investir em qualquer dispositivo.
O recurso dos AirPods Pro é uma porta de entrada real para quem nunca fez nada sobre a própria audição. Porta de entrada, não destino final.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Decisões sobre saúde auditiva, especialmente diante de sintomas como perda súbita, perda assimétrica, zumbido ou vertigem, devem ser tomadas com otorrinolaringologista ou audiologista.
