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Libre Duo mede glicose e cetonas continuamente: serve para dieta cetogênica e jejum?

O primeiro sensor duplo autorizado nos Estados Unidos foi desenvolvido para pessoas com diabetes. Estudos anteriores ajudam a entender sua precisão e o interesse fora dessa indicação.

Por Dr. Lucca Ortolan Hansen· 14 de setembro de 2026· Revisado por Lucca Ortolan Hansen
Revisado por médico

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Pessoa segura entre os dedos o sensor circular branco Libre Duo
O Libre Duo reúne dois eletrodos no mesmo sensor para acompanhar glicose e beta-hidroxibutirato no líquido intersticial. Imagem de divulgação: Abbott / PR Newswire

A FDA autorizou em 25 de agosto de 2026 o Libre Duo 10 Day, primeiro sensor nos Estados Unidos a acompanhar glicose e cetonas continuamente no mesmo dispositivo. A indicação cobre pessoas com diabetes a partir dos 2 anos e busca antecipar sinais de cetoacidose diabética, uma emergência provocada pelo acúmulo de cetonas e pela falta de insulina1.

O interesse fora do diabetes é previsível. O aparelho informa, a partir do líquido intersticial, a concentração de beta-hidroxibutirato, ou BHB, a cetona que predomina na circulação durante uma dieta cetogênica ou um jejum. A autorização americana, porém, não inclui monitoramento de dieta, desempenho ou “saúde metabólica” em pessoas sem diabetes.

Um sensor, duas reações químicas

Uma pequena haste fica sob a pele, em contato com o líquido que ocupa o espaço entre as células. O sensor usa dois eletrodos vizinhos: um recebe a química da glicose; o outro, a do BHB. Membranas próprias controlam quanto de cada molécula alcança seu respectivo eletrodo3.

O precursor publicado em 2021 usava a enzima beta-hidroxibutirato desidrogenase. A reação transfere elétrons até o eletrodo e gera uma corrente proporcional à concentração de BHB4. No protótipo duplo descrito em 2025, cada canal mantinha sua própria química enzimática e a calibração de fábrica convertia o sinal elétrico em mmol/L3.

O aplicativo recebe uma leitura a cada minuto e mostra se glicose e cetonas estão subindo ou caindo. Testes de sangue e urina registram um único momento; a contribuição nova do Duo é a curva ao longo do dia1.

O que os testes dizem sobre a precisão

Os números públicos mais detalhados ainda pertencem a sensores anteriores ao Libre Duo comercial.

Em 2021, um estudo de viabilidade acompanhou 12 adultos que já seguiam dieta com pouco carboidrato. Cada participante usou três sensores ativos e um sensor sem a enzima, destinado a medir o ruído de fundo. Também fez oito testes capilares por dia. Ao final de 14 dias, os pesquisadores reuniram 3.132 pares de resultados4.

Nas concentrações abaixo de 1,5 mmol/L, a diferença absoluta média foi de 0,129 mmol/L. Cerca de 92% das leituras ficaram a até 0,3 mmol/L da referência capilar. A partir de 1,5 mmol/L, a diferença relativa média foi de 14,4%4.

O estudo era pequeno: 11 dos 12 participantes não tinham diabetes, ninguém apresentou cetoacidose e cinco dos 36 sensores de cetona não produziram dados válidos. A calibração foi calculada depois da coleta e a referência era um teste capilar da própria Abbott, sem comparação com um ensaio laboratorial independente. A empresa financiou o trabalho e três autores eram seus funcionários4.

Outro estudo avaliou protótipos duplos em 48 participantes. Cada pessoa usou quatro sensores e tomou uma bebida com 30 gramas de monoéster de cetona em duas visitas. Amostras capilares foram colhidas a cada 15 minutos. A análise reuniu 12.577 pares entre 0 e 5,6 mmol/L e encontrou pouca variação da sensibilidade entre pessoas3.

Esse trabalho investigou a calibração de fábrica. Quatorze sensores foram excluídos da análise de inclinação, e o artigo não calculou métricas de precisão clínica contra o teste de sangue. Todos os autores trabalhavam na Abbott, que financiou o artigo3.

Para autorizar o Libre Duo final, a FDA avaliou seis estudos com mais de 600 participantes, incluindo crianças. Segundo a agência, o sistema acompanhou diferenças clinicamente significativas durante os dez dias e identificou elevações antes da cetoacidose. O comunicado público não informa a diferença absoluta média nem a diferença percentual do canal de cetonas1.

O limite de 0,5 mmol/L

O valor de 0,5 mmol/L é usado com frequência como início operacional da cetose nutricional5. É uma convenção de pesquisa, não uma fronteira biológica rígida.

Perto desse ponto, a diferença média de 0,129 mmol/L encontrada no precursor poderia colocar uma leitura de um lado ou do outro da linha. Os dados daquele estudo não permitem tratar 0,48 e 0,52 mmol/L como estados metabólicos diferentes. O comunicado da FDA e a página do Libre Duo não informam a precisão numérica do produto comercial nessa faixa.

O aplicativo mostra a concentração de BHB e sua curva ao longo do tempo. “Cetose” é a interpretação desse resultado dentro do contexto metabólico da pessoa.

Dieta cetogênica e jejum

A medição contínua também desperta interesse entre pessoas que fazem dieta cetogênica, jejum intermitente ou jejum prolongado. Como o BHB sobe nessas situações, em princípio o gráfico pode registrar a mudança. Essa aplicação fica fora da indicação autorizada pela FDA, e faltam estudos do produto comercial que validem decisões nutricionais ou benefícios clínicos em pessoas sem diabetes.

Depois de um jejum noturno, 6.102 adultos de uma coorte populacional apresentaram mediana de BHB de 0,122 mmol/L; metade ficou aproximadamente entre 0,093 e 0,169 mmol/L6. Nessa coorte, o BHB matinal permaneceu geralmente bem abaixo do corte de 0,5.

O tempo para cruzar esse valor varia. Em um estudo cruzado com 20 adultos, a média foi de 21,1 horas durante um jejum sem exercício e de 17,5 horas quando o protocolo começou com uma sessão de esteira. A amostra era pequena e a diferença entre as condições foi incerta7. A última refeição, o estoque de glicogênio, a atividade física e características individuais mudam a curva. Um jejum de 12 ou 16 horas pode aumentar o BHB sem atingir 0,5 mmol/L.

O gráfico responderia melhor a perguntas pessoais como “minhas cetonas começaram a subir?” e “a refeição interrompeu essa subida?”. Ele não demonstraria, sozinho, que o jejum trouxe benefício, que houve maior perda de gordura ou que uma concentração mais alta é melhor.

Preço e duração

Nos Estados Unidos, o produto aparece como “em breve” e dependerá de prescrição. Na Europa, recebeu a marca CE em maio, com lançamento previsto em países selecionados ao longo de 2026. A Abbott ainda não publicou o preço nesses mercados nem incluiu o Brasil no cronograma anunciado210.

Como referência, o regulamento de uma promoção da Abbott atribui ao Libre 2 Plus o valor unitário de R$ 329,99 por sensor de até 15 dias8. Se uma unidade do Duo custasse o mesmo, três sensores de dez dias somariam R$ 989,97 por mês. O cálculo dimensiona o gasto; o Duo tem outro canal de medição e ainda não possui preço brasileiro.

No teste de duração informado pela fabricante, 84,1% dos sensores em adultos e 68,8% dos sensores pediátricos chegaram ao décimo dia. Aproximadamente 16% e 31%, respectivamente, terminaram antes2.

Quando a leitura exige confirmação

O aviso de segurança da Abbott informa que o alarme urgente pode deixar passar alguns episódios acima de 3,0 mmol/L. Cetonas devem ser interpretadas junto com glicose e sintomas; quando as leituras não combinam com o quadro, a orientação oficial inclui conferir a glicose por picada no dedo2.

Em quem tem diabetes, náusea, vômitos, dor abdominal, respiração rápida, sonolência ou confusão associados à elevação das cetonas exigem avaliação urgente9. Jejum prolongado e dieta cetogênica pedem cautela adicional para quem usa insulina ou medicamentos da classe dos inibidores de SGLT211.


Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. O Libre Duo foi autorizado nos Estados Unidos para pessoas com diabetes a partir dos 2 anos. Não altere insulina, medicamentos, dieta ou duração do jejum com base apenas em uma leitura do sensor. Sintomas compatíveis com cetoacidose exigem atendimento médico imediato.

Fontes

  1. FDA Authorizes First Wearable Device That Continuously Monitors Both Ketone Levels and Blood Sugar. U.S. Food and Drug Administration.· regulator
  2. Libre Duo 10 Day system. FreeStyle Libre US.· official_data
  3. Hoss U et al. Continuous Dual Glucose–Ketone Sensing Technology. Diabetes Technology & Therapeutics, 2025.· paper
  4. Alva S et al. Feasibility of Continuous Ketone Monitoring in Subcutaneous Tissue Using a Ketone Sensor. Journal of Diabetes Science and Technology, 2021.· paper
  5. Leaf A et al. International Society of Sports Nutrition position stand: ketogenic diets. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2024.· guideline
  6. Knol MGE et al. Sex-Specific Determinants of the Ketone Body Beta-Hydroxybutyrate in the General Population. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2026.· paper
  7. Deru L et al. The Effects of Exercise on Beta-Hydroxybutyrate Concentrations over a 36-h Fast: A Randomized Crossover Study. Medicine & Science in Sports & Exercise, 2021.· paper
  8. Regulamento da promoção 10 Anos de Libre no Brasil. Abbott Laboratórios do Brasil.· official_data
  9. DKA: Signs, Symptoms, and Treatment. American Diabetes Association.· society
  10. Abbott secures CE Mark for dual glucose-ketone sensing technology. Abbott.· official_data
  11. Dhatariya K et al. Continuous Ketone Monitoring for People with Diabetes: International Expert Recommendations on the Application of a New Technology. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2026.· guideline

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