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Colírio para vista cansada reduz a dependência de óculos? O que sabemos sobre a aceclidina

O medicamento contrai a pupila e amplia o foco de perto por algumas horas. A bula recomenda exame da retina antes do uso.

Por Dr. Lucca Ortolan Hansen· 08 de setembro de 2026· Revisado por Lucca Ortolan Hansen
Revisado por médico

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Homem grisalho segura um frasco de colírio e puxa a pálpebra inferior
Colírios mióticos para presbiopia têm efeito temporário e exigem prescrição e exame ocular. Foto: Tima Miroshnichenko / Pexels

A presbiopia, conhecida como vista cansada, costuma aparecer depois dos 40. O sistema de acomodação envelhece: o cristalino perde flexibilidade e fica mais difícil alternar o foco entre longe e perto.

Em julho de 2025, o FDA aprovou nos Estados Unidos a aceclidina oftálmica 1,44%, vendida como Vizz, para tratar presbiopia em adultos1. O colírio melhora o foco de perto por algumas horas por meio da contração da pupila. O cristalino e a acomodação permanecem inalterados.

Como um colírio melhora o foco sem mexer no cristalino

A aceclidina é um miótico: ela contrai o esfíncter da íris e deixa a pupila menor. Uma abertura pequena cria um efeito pinhole, parecido com olhar por um furinho feito no papel. Raios mais periféricos são bloqueados e a profundidade de foco aumenta. Segundo a bula, a ação é predominantemente seletiva para a pupila, com pouca estimulação do músculo ciliar.2

O efeito é óptico, não uma reversão do envelhecimento do olho. Quando a pupila volta a dilatar, a presbiopia continua ali.

Na formulação aprovada, a bula americana orienta uma gota em cada olho, dois minutos de espera e uma segunda gota, uma vez ao dia2. O produto não tem registro identificado no Brasil.

O que os estudos CLARITY mostraram

O FDA baseou a eficácia nos ensaios de fase 3 CLARITY-1 e CLARITY-2. As comparações principais reuniram 466 participantes de 45 a 75 anos: 234 receberam aceclidina, 156 brimonidina e 76 veículo. Os estudos randomizaram 698 pessoas no total; outras 232 receberam uma combinação experimental de aceclidina e brimonidina que não corresponde ao produto aprovado.13

O desfecho principal era ganhar pelo menos três linhas na visão monocular de perto, corrigida para longe e medida a 40 centímetros, três horas após a dose, sem perder uma linha ou mais a quatro metros.

  • No CLARITY-1, 101 de 157 participantes com aceclidina atingiram esse resultado, 65%, contra 18 de 156 com brimonidina, 12%.
  • No CLARITY-2, foram 55 de 77 com aceclidina, 71%, e 6 de 76 com o veículo, 8%.13

O desfecho mediu melhora em um olho, num teste padronizado e em um ponto do primeiro dia. Os estudos não avaliaram abandono dos óculos nem conforto para ler ou trabalhar.

Os três estudos CLARITY foram patrocinados pela LENZ Therapeutics, fabricante e requerente do registro. Os números vêm da avaliação do dossiê pela FDA, não de comparação independente publicada.13

A bula registra início em 30 minutos e efeito ainda mensurável dez horas depois, embora a proporção de participantes que alcançava o desfecho caísse com o passar do dia.2 Os participantes receberam o tratamento por 42 dias, mas as avaliações de eficácia descritas na bula foram até o dia 28. Não houve sinal evidente de perda de resposta nesse intervalo; o próprio parecer do FDA diz que a manutenção além de 28 dias ainda merecia investigação.3

O que sabemos sobre segurança

O CLARITY-3 acompanhou 144 participantes tratados com a formulação aprovada por 26 semanas12. Esse período identifica efeitos comuns, mas é insuficiente para estimar eventos muito raros ou riscos após anos de uso.

As reações mais frequentes na bula foram:

  • irritação ao pingar: 20%, 75 de 378 participantes expostos à aceclidina nos três estudos;
  • visão escura ou com menos luminosidade: 16%, 59 de 378;
  • dor de cabeça: 13%, 48 de 378.23

Contrair a pupila deixa entrar menos luz. Por isso, a bula orienta cuidado ao dirigir à noite ou fazer atividade perigosa em ambiente pouco iluminado. Se a visão estiver borrada, a pessoa não deve dirigir nem operar máquinas.2

Rasgo e descolamento de retina

Casos raros de rasgo e descolamento de retina foram relatados com colírios mióticos, sobretudo em pessoas suscetíveis ou com doença retiniana prévia. A bula da aceclidina aconselha examinar a retina de todos os pacientes antes de iniciar o tratamento.2

A frequência desse evento com aceclidina não foi estimada. A orientação da bula segue um alerta de classe dos colírios mióticos.

Flashes de luz que começaram de repente, aumento súbito de moscas volantes, uma sombra em forma de cortina ou perda de visão exigem avaliação oftalmológica imediata.2 O uso também pede cautela em quem já teve irite, uma inflamação dentro do olho.

É melhor do que pilocarpina ou óculos?

Não há ensaio direto mostrando superioridade da aceclidina sobre pilocarpina, outros mióticos ou óculos em satisfação, segurança ou qualidade de vida de longo prazo.45 Comparar estudos separados não resolve a pergunta.

As duas contraem a pupila, mas a aceclidina estimula menos o músculo ciliar do que a pilocarpina. Isso sugere diferenças possíveis em espasmo de acomodação ou desvio temporário para miopia; não prova vantagem clínica.24

Óculos corrigem de forma previsível, não escurecem a visão e não têm efeito farmacológico na retina. O colírio oferece conveniência temporária para parte dos adultos.

Também não corrige catarata, glaucoma, degeneração macular, olho seco ou erro refrativo de longe. Mesmo quem melhora no teste pode precisar de óculos para dirigir, trabalhar ou ler. Quem tem diabetes continua precisando de acompanhamento da retina, com ou sem colírio.

E no Brasil?

A aprovação do FDA vale para os Estados Unidos. Na base pública de medicamentos registrados da Anvisa, atualizada em 30 de julho e consultada em 18 de agosto de 2026, não há resultado para Vizz nem para aceclidina.6 Assim, não foi identificado registro brasileiro do produto ou de aceclidina oftálmica para presbiopia; não há venda regular aprovada para essa indicação no país.

Importar, manipular ou usar outra formulação de aceclidina não equivale ao produto estudado. Concentração, veículo, esterilidade e esquema de aplicação fazem parte do tratamento avaliado.

O que muda na prática

A aceclidina ampliou o foco de perto por algumas horas nos ensaios. A escolha entre colírio e óculos depende da tarefa, da visão em baixa luminosidade, do exame ocular e da preferência do paciente.

Antes de considerar um miótico, a conversa precisa incluir:

  1. qual tarefa de perto a pessoa quer melhorar;
  2. como está a visão de longe e em baixa luminosidade;
  3. se há miopia alta, cirurgia ocular anterior ou doença da retina;
  4. se a retina foi examinada;
  5. quais sinais exigem suspender o uso e procurar atendimento.

Óculos de leitura continuam como opção sem efeito farmacológico. O colírio acrescenta uma alternativa temporária para adultos selecionados após avaliação ocular.


Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Não use colírios mióticos sem prescrição e avaliação oftalmológica. Flashes súbitos, novas moscas volantes, sombra no campo visual ou perda de visão exigem atendimento imediato.

Fontes

  1. Drug Trials Snapshots: VIZZ· regulator
  2. VIZZ (aceclidine ophthalmic solution) 1.44% Prescribing Information· regulator
  3. FDA Risk Review for NDA 218585: VIZZ (aceclidine ophthalmic solution)· regulator
  4. Grzybowski A, Kapitanovaite L, Zemaitiene R. An updated systematic review of pharmacological treatments for presbyopia. Advances in Ophthalmology Practice and Research. 2024;4(4):220-225.· paper
  5. Aceclidine (Vizz) for presbyopia. The Medical Letter on Drugs and Therapeutics. 2025;67(1741):177-178.· paper
  6. Dados abertos de medicamentos registrados: Agência Nacional de Vigilância Sanitária· official_data

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