No dia 5 de março de 2026, o FDA aprovou uma combinação que não existia até pouco tempo: teclistamabe (Tecvayli) junto com daratumumabe subcutâneo (Darzalex Faspro) para adultos com mieloma múltiplo que já receberam pelo menos uma linha de tratamento anterior, incluindo um inibidor de proteassoma e um imunomodulador.2
A decisão é baseada no ensaio de fase 3 MajesTEC-3, publicado no New England Journal of Medicine em fevereiro de 2026.1 Os números foram suficientemente expressivos para converter a aprovação acelerada do teclistamabe em monoterapia (obtida em outubro de 2022) em uma aprovação tradicional, agora para uso combinado e em estágio mais precoce da doença.
Este artigo explica o que são esses dois medicamentos, o que o ensaio mostrou, quais são os riscos reais e o que isso significa para quem tem mieloma múltiplo no Brasil.
Para uma explicação mais ampla sobre o que são anticorpos biespecíficos como classe, incluindo outros medicamentos aprovados e como eles se comparam ao CAR-T e aos inibidores de checkpoint, leia o nosso explainer sobre anticorpos biespecíficos em oncologia.
O que é o mieloma múltiplo
Mieloma múltiplo é um câncer de plasma, as células que produzem anticorpos na medula óssea. Quando essas células se tornam malignas e proliferam sem controle, invadem a medula, destroem o osso ao redor, prejudicam a produção de células sanguíneas normais e sobrecarregam os rins com proteínas anômalas.
No Brasil, mais de 12 mil pessoas foram diagnosticadas com mieloma múltiplo entre 2023 e 2025, segundo dados do Painel Oncologia Brasil do Ministério da Saúde. Não existe cura: o tratamento controla a doença por períodos variáveis, mas as recaídas são esperadas e, a cada recaída, o mieloma costuma se tornar mais resistente.
Essa resistência progressiva é o problema que a combinação aprovada em março tenta resolver.
O que são esses dois medicamentos
Daratumumabe (nome comercial Darzalex) é um anticorpo monoclonal aprovado há anos para mieloma. Ele reconhece e se liga à proteína CD38, expressa em abundância nas células do mieloma, e sinaliza para o sistema imune destruí-las. É bem estabelecido como parte de esquemas de primeira e segunda linha.
Teclistamabe é diferente. Ele é um anticorpo biespecífico: uma engenharia molecular que une dois anticorpos em um só, cada um reconhecendo um alvo diferente. Um braço do teclistamabe se liga ao receptor CD3, presente na superfície de todas as células T do sistema imune do próprio paciente. O outro braço se liga ao BCMA (antígeno de maturação de células B, do inglês B-cell maturation antigen), proteína expressa em quase todas as células do mieloma.
A lógica é direta: o teclistamabe forma uma ponte molecular entre a célula T do paciente e a célula tumoral. Quando essa ponte se forma, a célula T interpreta o contato como um sinal de ataque e libera substâncias que destroem a célula de mieloma adjacente. Não é preciso que o tumor apresente uma "bandeira" de invasor, como normalmente ocorre. O anticorpo força essa aproximação e ativa a resposta mesmo em tumores que aprenderam a se camuflar.
A combinação une dois mecanismos complementares: o daratumumabe ataca o CD38; o teclistamabe recruta células T pelo CD3 para atacar o BCMA. Os resultados do MajesTEC-3 testaram essa hipótese em 587 pacientes.
O que o MajesTEC-3 mostrou
O ensaio MajesTEC-3 (NCT05083169) foi um estudo de fase 3, randomizado e aberto, conduzido em múltiplos centros internacionais.1 Foram 587 pacientes com mieloma recidivado ou refratário que tinham recebido entre 1 e 3 linhas anteriores de tratamento. O grupo de tratamento recebeu teclistamabe + daratumumabe subcutâneo (291 pacientes); o grupo controle recebeu a escolha do médico entre dois esquemas padrão baseados em daratumumabe: DPd (daratumumabe, pomalidomida, dexametasona) ou DVd (daratumumabe, bortezomibe, dexametasona), com 296 pacientes.
O acompanhamento mediano foi de 34,5 meses.
Sobrevida livre de progressão (PFS): A mediana de PFS no grupo teclistamabe + daratumumabe não foi atingida; ou seja, metade dos pacientes ainda não havia progredido quando o estudo foi analisado. No grupo controle, a mediana foi de 18,1 meses. A taxa de PFS aos 36 meses foi de 83,4% no grupo de tratamento versus 29,7% no grupo controle (razão de risco [HR] 0,17; IC95% 0,12–0,23; p<0,0001).1
Em termos absolutos: ao fim de 3 anos, a cada 100 pacientes no grupo teclistamabe + daratumumabe, cerca de 83 ainda não tinham progredido; no grupo controle, esse número era de cerca de 30.
Taxa de resposta global (ORR): 89,0% no grupo de tratamento versus 75,3% no controle.1
Resposta completa ou melhor (≥CR): 81,8% versus 32,1%.1 Isso indica que uma proporção alta de pacientes no grupo de tratamento atingiu remissão profunda, com ausência detectável de doença nos exames convencionais.
Negatividade de doença residual mínima (MRD 10⁻⁵): 58,4% no grupo de tratamento versus 17,1% no controle.1 A negatividade de MRD significa que, nos exames mais sensíveis disponíveis (capazes de detectar uma célula tumoral entre 100.000 células normais), não se encontrou doença residual. É considerada um marcador favorável de resposta duradoura, embora a relação com sobrevida de longo prazo ainda esteja em acompanhamento.
Sobrevida global: A taxa de sobrevida global aos 36 meses foi de 83,3% no grupo de tratamento versus 65,0% no controle (HR 0,46; p<0,0001).1
Esses resultados foram primeiramente apresentados no congresso ASH (American Society of Hematology) em dezembro de 2025 e publicados formalmente no NEJM em fevereiro de 2026.1
Os efeitos adversos: o que acontece na prática
Os resultados de eficácia são expressivos. Os riscos também merecem atenção detalhada.
Síndrome de liberação de citocinas (CRS): A CRS ocorreu em 60,1% dos pacientes que receberam teclistamabe + daratumumabe.1 O nome pode soar grave, mas no MajesTEC-3 todos os casos foram grau 1 ou 2 (febre, calafrio, queda de pressão leve) e todos se resolveram. Nenhum paciente apresentou CRS grau 3 ou superior.4
A CRS acontece porque o anticorpo biespecífico ativa muitas células T ao mesmo tempo, que liberam substâncias inflamatórias (citocinas) em surto. Para reduzir esse risco, os protocolos usam escalonamento gradual de dose: nas primeiras semanas, administra-se uma fração pequena do medicamento e a dose sobe progressivamente. Isso exige hospitalização ou monitoramento diário nas fases iniciais do tratamento.5
Infecções: Esse é o risco mais relevante do ensaio. Infecções de grau 3 ou 4 ocorreram em 54,1% dos pacientes no grupo de tratamento versus 43,4% no controle.1 Foram registradas 13 mortes por infecção no grupo teclistamabe + daratumumabe (4,6% dos pacientes), comparadas a 4 mortes (1,4%) no grupo controle.4
Esse excesso de infecções graves é o principal sinal de segurança a monitorar. O mecanismo é a hipogamaglobulinemia: o tratamento reduz também as células plasmáticas normais, que produzem anticorpos de defesa. Após emendas no protocolo do estudo para incluir profilaxia antimicrobiana e imunoglobulina intravenosa, as taxas de infecção diminuíram ao longo do tempo.
Neurotoxicidade (ICANS): A síndrome de neurotoxicidade associada a células efetoras imunes (ICANS) ocorreu em apenas 1,1% dos pacientes com teclistamabe + daratumumabe, em 3 casos no total, e todos se resolveram.1
Mortes por eventos adversos: 20 pacientes (7,1%) no grupo de tratamento e 17 pacientes (5,9%) no controle faleceram por causas relacionadas a eventos adversos do tratamento.1
Esses dados precisam ser lidos no contexto: trata-se de uma população com mieloma recidivado ou refratário, em geral com saúde já comprometida, e o grupo controle também recebeu tratamento ativo. Os riscos são reais, mas comparados a um cenário de doença progressiva, o balanço benefício-risco foi considerado favorável pelo FDA.
O que esse ensaio representa: contexto mais amplo
O MajesTEC-3 é o primeiro ensaio de fase 3 a demonstrar melhora tanto em sobrevida livre de progressão quanto em sobrevida global com um anticorpo biespecífico versus um esquema padrão em mieloma múltiplo recidivado.4
Até agora, os anticorpos biespecíficos aprovados para mieloma (teclistamabe em monoterapia em 2022, elranatamabe em 2023, talquetamabe em 2023) eram indicados para quarta linha ou posterior, em pacientes com muitas linhas anteriores de tratamento. A aprovação de março de 2026 move o teclistamabe para segunda linha ou posterior, uma mudança de indicação significativa.2
Para entender onde essa aprovação se encaixa na evolução mais ampla dos anticorpos biespecíficos, incluindo linfomas, câncer de pulmão de pequenas células e a comparação com CAR-T, veja o explainer sobre anticorpos biespecíficos em oncologia.
O campo dos biológicos para câncer está em expansão rápida. Outros artigos da sossego.health cobrem avanços relacionados: a aprovação de terapia gênica para hemofilia A, a terapia CAR-T e o pipeline CRISPR, o pipeline de terapias gênicas (Casgevy, Zolgensma e outros) e o papel crescente dos biológicos em psoríase.
O cenário brasileiro
A situação regulatória no Brasil é diferente da dos Estados Unidos, e importa para quem acompanha o acesso a esses medicamentos.
Teclistamabe em monoterapia: A ANVISA aprovou o teclistamabe (Tecvayli) em março de 2023, para adultos com mieloma múltiplo recidivante ou refratário que já receberam pelo menos três linhas anteriores, incluindo inibidor de proteassoma, imunomodulador e anti-CD38.3 Ou seja, o teclistamabe já tem registro no Brasil, mas apenas como monoterapia e para uma indicação mais restrita (quarta linha) do que a aprovação americana mais recente.
A combinação teclistamabe + daratumumabe: Esta combinação específica, aprovada pelo FDA em março de 2026 para segunda linha, ainda não tem registro na ANVISA na data de publicação deste artigo. O daratumumabe (Darzalex) já tem registro ANVISA para mieloma em diferentes esquemas, mas a combinação com teclistamabe na indicação expandida precisa de submissão e análise regulatória própria no Brasil.
Acesso pelo SUS: Nenhum dos dois medicamentos, em qualquer indicação, foi incorporado ao SUS pelo CONITEC até a data deste artigo. A incorporação exige avaliação de eficácia, segurança e custo-efetividade, processo que costuma levar anos para medicamentos oncológicos de alto custo.
Custo: No mercado americano, o teclistamabe em monoterapia custa aproximadamente US$ 40.000 a 50.000 por mês, o que coloca o tratamento anual na faixa de R$ 2,4 a 3,0 milhões (estimativa aproximada a R$ 6,00/US$). A combinação com daratumumabe acrescenta custo adicional. Esses valores colocam o acesso fora do alcance da maioria sem cobertura específica.
Para pacientes com plano de saúde privado, a cobertura depende de o medicamento estar no Rol de Procedimentos da ANS. O acesso, na prática, costuma acontecer via programas de acesso especial do fabricante ou via ação judicial, antes da incorporação formal.
O que os resultados mostram e o que não mostram
Os dados do MajesTEC-3 são robustos para a população estudada: pacientes com mieloma recidivado ou refratário após 1 a 3 linhas anteriores, com boa performance clínica suficiente para participar de um ensaio fase 3 rigoroso. Os números de PFS, ORR e sobrevida global são consistentes entre si e expressivos.
Alguns pontos merecem cautela:
- O ensaio foi aberto (sem mascaramento), o que é inevitável nesse contexto mas pode influenciar avaliações subjetivas.
- Apenas 5% dos pacientes no estudo tinham usado daratumumabe antes, o que limita a aplicabilidade a pacientes que já usaram anti-CD38 anteriormente.
- O seguimento mediano de 34,5 meses é suficiente para as análises de PFS, mas os dados de sobrevida global ainda estão em maturação.
- O excesso de mortes por infecção (4,6% vs 1,4%) no grupo de tratamento é um sinal real que precisará ser monitorado em estudos de vida real, especialmente em populações mais frágeis do que as recrutadas em ensaios clínicos.
O que não dá para concluir: que esse esquema funciona para todos os tipos de mieloma, que os resultados se repetem fora de centros especializados, ou que qualquer paciente com mieloma recidivado deve buscar esse tratamento sem avaliação individualizada por hematologista ou oncologista experiente em imunoterapia.
O que fica desta aprovação
O FDA aprovou em março de 2026 uma combinação que muda o horizonte de tratamento do mieloma múltiplo recidivado: teclistamabe + daratumumabe, com base em resultados de sobrevida livre de progressão e sobrevida global superiores ao padrão de cuidado anterior para 1 a 3 linhas prévias.12
Os benefícios são reais. Os riscos, em especial as infecções graves, também são reais e exigem infraestrutura especializada para monitoramento. A pergunta sobre acesso no Brasil ainda não tem resposta definitiva: o teclistamabe em monoterapia tem registro ANVISA desde 2023, mas a combinação expandida requer processo regulatório próprio.
Para pacientes com mieloma múltiplo, a conversa sobre essas opções começa com o oncologista ou hematologista que acompanha o caso, não com uma leitura de aprovação regulatória.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Pessoas com diagnóstico de mieloma múltiplo devem discutir opções de tratamento, incluindo qualquer medicamento mencionado aqui, com o oncologista ou hematologista responsável pelo seu cuidado.