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Teplizumabe aprovado no Brasil: o primeiro remédio que pode atrasar o diabetes tipo 1

A ANVISA aprovou em março de 2026 o primeiro imunomodulador capaz de adiar o diagnóstico clínico de DM1, mas ele só funciona antes dos sintomas, em um grupo muito específico de pessoas.

Por Dr. Lucca Ortolan Hansen· 30 de abril de 2026· Revisado por Lucca Ortolan Hansen
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Ampola de medicamento imunomodulador sobre fundo clínico desfocado
O teplizumabe (Tzield) é administrado por infusão intravenosa em ciclo único de 14 dias, antes do aparecimento dos sintomas clínicos do diabetes tipo 1. Ilustração editorial / arquivo sossego.health

Pela primeira vez na história, há um medicamento aprovado no Brasil capaz de adiar o diagnóstico de diabetes tipo 1. Não é cura. Não é prevenção definitiva. Mas é, no vocabulário preciso da medicina, uma mudança de história natural da doença, e isso importa muito para as famílias afetadas.

O que aconteceu

Em 9 de março de 2026, a ANVISA publicou no Diário Oficial da União (Resolução RE nº 897) a aprovação do teplizumabe, comercializado como Tzield pela Sanofi.3 A indicação é específica: atrasar a progressão do diabetes tipo 1 estágio 3 em pacientes com 8 anos ou mais que já se encontram no estágio 2, ou seja, antes do aparecimento dos sintomas clínicos.

O Brasil segue os passos do FDA americano, que aprovou o mesmo medicamento em novembro de 2022.4 Na época, foi a primeira aprovação mundial de qualquer terapia modificadora de curso do DM1.

Por que isso importa, em números reais

O estudo principal foi o TrialNet TN10, publicado no New England Journal of Medicine em 2019 (Herold KC et al., PMID 31180194). Eram 76 parentes de primeiro grau de pessoas com DM1 em estágio 2: todos com dois ou mais autoanticorpos pancreáticos e com alterações glicêmicas detectáveis, mas ainda sem sintomas.1

O resultado principal: quem recebeu teplizumabe levou em mediana 48,4 meses para progredir ao diabetes clínico. Quem recebeu placebo, 24,4 meses. A diferença é de quase dois anos. A taxa anualizada de progressão caiu de 35,9% (placebo) para 14,9% (teplizumabe).1

Em seguimento estendido publicado na Science Translational Medicine em 2021 (Sims EK et al., PMID 33658358), os números ficaram ainda mais favoráveis: medianas de 59,6 versus 27,1 meses, com 50% do grupo tratado ainda sem diabetes, contra 22% no grupo controle.2

Traduzindo sem jargão: o medicamento não impede o DM1, mas empurra o relógio para frente. Para uma criança em fase escolar ou um adolescente, dois anos a mais sem insulina, sem hipoglicemias noturnas, sem monitoramento contínuo, representam ganho concreto de qualidade de vida e tempo para preparação familiar e psicológica.

Como funciona

O teplizumabe é um anticorpo monoclonal humanizado que se liga ao receptor CD3, presente na superfície dos linfócitos T. No DM1, linfócitos T autorreativos atacam as células beta do pâncreas, aquelas que produzem insulina. O teplizumabe modula esse ataque: parte dessas células T passa a um estado de "exaustão funcional", diminuindo a destruição das ilhotas pancreáticas.

O tratamento é um ciclo único de 14 dias em infusão intravenosa, não é uma terapia crônica.

Quem pode se beneficiar

A população elegível é pequena e bem delimitada. Para considerar o tratamento, é necessário:

  • Ser parente de primeiro grau (pai/mãe, filho/a, irmão/irmã) de alguém com DM1
  • Ter dois ou mais autoanticorpos pancreáticos positivos (anti-GAD, anti-IA-2, anti-IAA, anti-ZnT8)
  • Ter alteração glicêmica detectável: glicemia de jejum ≥ 110 mg/dL, ou ≥ 140 mg/dL em 30/60 minutos no TOTG, ou tolerância à glicose diminuída, mas sem critério diagnóstico pleno de diabetes
  • Ter 8 anos ou mais

Isso é chamado de "DM1 estágio 2" pela classificação atual da American Diabetes Association e da Endocrine Society. A maioria das pessoas nessa fase não sabe que se encontra nela, e é por isso que o rastreio em familiares é fundamental.

O programa internacional TrialNet (trialnet.org) oferece esse rastreio gratuitamente em muitos países, mas não tem representação formal no Brasil.6 Endocrinologistas e centros de referência em DM1 são o caminho nacional para identificar candidatos.

O que ainda não está resolvido

Acesso e custo. O tratamento custa aproximadamente R$ 957.000–990.000 (US$ 193.000–200.000)* nos Estados Unidos pelo ciclo completo de 14 dias. No Brasil, a ANVISA aprovou, mas o preço ainda passa pela revisão da CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos) antes de chegar às farmácias. Não há avaliação do CONITEC em andamento conhecida, o que significa que o SUS não cobre o medicamento por enquanto.

Planos de saúde têm obrigação potencial de cobertura quando há indicação médica comprovada para uma condição coberta, mas o caminho pode envolver negativa e recurso judicial, um percurso que não está ao alcance de todas as famílias.

Duração do efeito. O estudo TN10 mostrou retardo, não prevenção permanente. A maioria dos participantes ainda desenvolveu DM1, apenas mais tarde.1 Não sabemos se um segundo ciclo de tratamento seria seguro ou eficaz.

Efeitos adversos. O teplizumabe causa queda transitória na contagem de linfócitos e pode provocar sintomas semelhantes aos de gripe nas primeiras infusões. Infecções foram mais frequentes no grupo tratado do que no placebo.1 A administração exige monitoramento clínico.

Rastreio no Brasil. Identificar candidatos exige estrutura de testagem de autoanticorpos que ainda não é rotina nos serviços públicos brasileiros.

O que muda na prática hoje

Para a maioria das pessoas, nada muda imediatamente. Mas para famílias com histórico de DM1, a aprovação traz uma pergunta nova: alguém na nossa família deveria ser rastreado?

A resposta depende de avaliação com endocrinologista, de preferência em um centro com experiência em DM1, que pode solicitar a pesquisa de autoanticorpos e, se positiva, indicar o TOTG para estadiar o risco. A Sociedade Brasileira de Diabetes reconheceu a aprovação como "muito importante" e considera que ela "abre o caminho para a medicina poder prevenir completamente a doença" no futuro.5

Por enquanto, o teplizumabe é uma boa notícia real para um grupo restrito de pessoas, num país onde o acesso ainda é incerto. Vale acompanhar, e vale conversar com o endocrinologista se sua família tem DM1.

*Cotação aproximada de R$ 4,96/US$ em 30 de abril de 2026.


Este conteúdo é informativo e não substitui consulta com endocrinologista pediátrico ou adulto.

Fontes

  1. An Anti-CD3 Antibody, Teplizumab, in Relatives at Risk for Type 1 Diabetes (TrialNet TN10)· paper
  2. Teplizumab improves and stabilizes beta cell function in antibody-positive high-risk individuals· paper
  3. ANVISA — Resolução RE nº 897: aprovação do teplizumabe (Tzield) no Brasil· regulator
  4. FDA approves TZIELD (teplizumab-mzwv) to delay the onset of Stage 3 type 1 diabetes· regulator
  5. Sociedade Brasileira de Diabetes — Anvisa libera uso de medicamento que atrasa aparecimento de DM1· society
  6. TrialNet Pathway to Prevention — Risk Screening· trial_registry

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