O FDA aprovou em 15 de julho de 2026 o Lipfendra (enlicitide), primeiro inibidor oral de PCSK9 autorizado nos Estados Unidos. A agência anunciou a decisão dois dias depois. O comprimido diário foi liberado para reduzir o LDL em adultos com hipercolesterolemia, inclusive a forma familiar heterozigótica, sempre associado a dieta e atividade física12.
A aprovação acrescenta uma opção oral a uma classe até então disponível por injeção2. Ela se apoia em dois ensaios que mediram a queda do LDL; o efeito do próprio enlicitide sobre infarto, AVC e morte cardiovascular continua em estudo1456.
Para quem o FDA autorizou
A indicação inclui pessoas com hipercolesterolemia familiar heterozigótica, condição genética que mantém o colesterol alto desde cedo. O Lipfendra foi estudado como complemento ao tratamento que os participantes já usavam, principalmente estatinas em dose tolerada345.
A dose aprovada é de 20 mg uma vez ao dia. A bula determina a tomada pela manhã, em jejum, com água, café preto ou chá puro, seguida de pelo menos 30 minutos antes de comer. Alimentos reduzem a exposição ao medicamento3.
Como o comprimido age
A PCSK9 é uma proteína que favorece a destruição dos receptores usados pelo fígado para retirar LDL do sangue. O enlicitide é um peptídeo macrocíclico que se liga à PCSK9 e bloqueia essa interação. Com mais receptores preservados na superfície das células do fígado, aumenta a remoção de LDL da circulação3.
O formato oral exigiu uma formulação que facilite a absorção intestinal. A biodisponibilidade descrita na bula é de cerca de 1%, e o comprimido contém caprato de sódio para facilitar a absorção oral3.
O que os dois ensaios encontraram
Os dois estudos eram randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo, com tratamento por 52 semanas. A bula reúne 3.207 participantes que receberam ao menos uma dose de enlicitide ou placebo: 2.904 no CORALreef Lipids e 303 no CORALreef HeFH. O desfecho principal foi a variação percentual do LDL na semana 243.
| Ensaio | Quem participou | LDL inicial médio | Resultado na semana 24 |
| CORALreef Lipids | Adultos com evento cardiovascular prévio ou alto risco, em tratamento para colesterol | 96,1 mg/dL | 55,8 pontos percentuais a mais de redução versus placeboNo component provided for Cite |
| CORALreef HeFH | Adultos com hipercolesterolemia familiar heterozigótica, todos em uso de estatina | 119,0 mg/dL | 59,4 pontos percentuais a mais de redução versus placeboNo component provided for Cite |
No CORALreef Lipids, 2.909 pessoas foram randomizadas na proporção de dois participantes para enlicitide para cada um no placebo; cinco não chegaram a receber uma dose. O LDL caiu 57,1% no grupo enlicitide e subiu 3,0% no placebo. A diferença ajustada foi de 55,8 pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95% entre 50,7 e 60,9 pontos percentuais4.
O CORALreef HeFH randomizou 303 adultos na mesma proporção. Todos usavam estatina, 81,5% em alta intensidade, e 64,4% também tomavam ezetimiba. O LDL caiu 58,2% com enlicitide e subiu 2,6% com placebo; a diferença foi de 59,4 pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95% entre 53,2 e 65,65.
Os resultados permaneceram favoráveis na semana 52, um desfecho secundário dos estudos. O seguimento de um ano informa sobre manutenção da queda do LDL, com alcance limitado para eventos cardiovasculares menos frequentes e efeitos adversos raros45.
Segurança observada até aqui
No ensaio maior, a frequência de reações adversas e de interrupção por reação foi semelhante entre enlicitide e placebo. No estudo de hipercolesterolemia familiar, a bula registrou diarreia em 7% do grupo enlicitide e 2% do placebo; tontura apareceu em 9% e 4%, respectivamente. As interrupções continuaram em proporções parecidas3.
A bula também diz que o enlicitide pode causar dano fetal com base no mecanismo de ação e orienta interromper o medicamento quando a gravidez for reconhecida, salvo se o benefício superar o possível risco; faltam dados humanos suficientes3.
Os estudos selecionaram adultos e acompanharam o tratamento por 52 semanas. A segurança em crianças ainda não foi estabelecida. O FDA adiou para 2036 a conclusão do estudo pediátrico exigido para participantes de 6 a 17 anos com hipercolesterolemia familiar1.
A prova cardiovascular ainda está em andamento
Baixar LDL é um desfecho aceito para avaliar medicamentos para colesterol, apoiado por resultados cardiovasculares de estatinas e de anticorpos injetáveis contra PCSK9. Os ensaios que embasaram o Lipfendra não foram desenhados para mostrar redução de infarto ou morte com o enlicitide145.
Essa resposta é o objetivo do CORALreef Outcomes, ensaio de fase 3 com 14.550 participantes previstos e alto risco cardiovascular. Em 26 de agosto de 2026, o estudo estava ativo, sem recrutamento, com conclusão da análise principal estimada para novembro de 2029. O desfecho reúne morte coronariana, infarto, AVC isquêmico, isquemia aguda de membro ou amputação e revascularização arterial urgente6.
Situação no Brasil
Em consulta feita em 26 de agosto de 2026, a base pública de medicamentos da Anvisa, atualizada no dia 14, não trazia resultados para Lipfendra, enlicitide ou o código de desenvolvimento MK-0616. A lista de preços da CMED publicada em 11 de agosto também não incluía o produto78.
Assim, não havia registro, preço máximo ou disponibilidade comercial confirmados no Brasil naquela data. A ausência nas bases públicas também não informa se existe algum pedido ainda não divulgado. Sem registro e preço da CMED, não há base oficial para estimar o custo brasileiro78.
Os dois ensaios foram financiados pela MSD/Merck. Funcionários da empresa participaram da autoria, e o artigo do CORALreef HeFH informa envolvimento do patrocinador no desenho, na condução, na análise dos dados, na interpretação e na preparação do manuscrito. Autores externos também declararam relações financeiras com fabricantes de medicamentos para colesterol45.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica. Tratamento para colesterol depende do risco cardiovascular, das metas de LDL, das terapias já usadas e do perfil de segurança de cada pessoa.
