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Controle de miopia em crianças: o que os pais devem saber antes de escolher um tratamento

Óculos comuns corrigem a visão, mas não freiam a progressão. Hoje existem opções com evidência para desacelerar a miopia na infância, e os pais merecem entender cada uma delas.

Por Dr. Lucca Ortolan Hansen· 30 de abril de 2026· Revisado por Lucca Ortolan Hansen
Risco médio

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Criança com óculos de sol lendo livro na praia ao sol
A exposição à luz natural intensa é um dos fatores estudados na prevenção da progressão da miopia em crianças. Foto: Drew Perales / Unsplash

O filho veio da escola com a receita na mão: miopia. O oftalmologista indicou óculos e, talvez, um tratamento para "segurar" a progressão. Esse segundo passo ainda confunde muita família. Afinal, o que significa "controlar" miopia? Existe mesmo algo além dos óculos comuns?

A resposta é sim. E entender as opções disponíveis é o primeiro passo para tomar uma decisão bem-informada junto com um especialista.

O que é miopia e por que ela piora na infância

Miopia é a dificuldade de enxergar longe com nitidez (erro refrativo em que a imagem se forma à frente da retina, e não sobre ela). Ela ocorre porque o globo ocular cresce um pouco além do tamanho ideal. Esse alongamento axial (o nome técnico para o processo) é o que medimos quando falamos em progressão da miopia.

Na infância e adolescência, os olhos ainda estão crescendo. E em muitas crianças, especialmente as expostas a muitas horas de atividade em ambiente fechado, esse crescimento pode se acelerar. O resultado: a receita sobe a cada consulta.

Por que isso importa além da questão visual? Miopia de grau alto (acima de -6 dioptrias, em geral) aumenta o risco de condições graves: descolamento de retina, glaucoma, maculopatia miópica (lesão na região central da retina) e catarata precoce. Não são complicações inevitáveis, mas o risco cresce de forma relevante quanto maior o grau final.

Daí a lógica do controle: desacelerar a progressão durante a infância para que o grau ao chegar na vida adulta seja o menor possível.

A epidemia silenciosa

Os números são expressivos. Em 2020, cerca de 30% da população mundial tinha miopia. Projeções amplamente citadas na literatura especializada estimam que esse número chegue a 50% até 2050, sendo 10% da população com grau alto. No Brasil, estudos apontam crescimento especialmente em centros urbanos, impulsionado por menos tempo ao ar livre e mais horas de atividade em distâncias curtas.

Um mito importante: óculos comuns não controlam a progressão

Este ponto merece atenção. Óculos de lente monofocal comum (os óculos tradicionais) corrigem a visão, mas não foram desenhados para frear o avanço da miopia. Há quem ouça o inverso, mas isso não tem sustentação na evidência atual. Para controlar progressão, são necessárias intervenções específicas.

As opções com evidência

1. Colírio de atropina em baixa concentração

A atropina é um colírio de uso noturno, com concentrações entre 0,01% e 0,05%. Sua exata forma de ação ainda é estudada, mas parece atuar em receptores do olho que regulam o crescimento axial.

O estudo LAMP (Low-Concentration Atropine for Myopia Progression), publicado na Ophthalmology em 2019, avaliou 438 crianças de 4 a 12 anos em um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo.1 A concentração de 0,05% mostrou redução de progressão de cerca de 67% em relação ao grupo placebo após um ano — a dose de 0,01% também foi eficaz, porém em menor magnitude.1 O estudo ATOM2, publicado na mesma revista em 2012 por Chia et al., confirmou que concentrações baixas têm boa eficácia com efeitos colaterais mínimos (como dilatação de pupila e dificuldade de focar de perto), praticamente ausentes a 0,01%.2

Importante: nenhuma dessas concentrações elimina a miopia. Elas desaceleram o avanço, e precisam ser usadas por anos, sob acompanhamento regular.

2. Lentes ortoceratológicas (orto-K)

São lentes rígidas usadas apenas durante o sono. Elas remoldam temporariamente a superfície da córnea, permitindo enxergar sem óculos durante o dia. Ao mesmo tempo, geram um padrão óptico que reduz o estímulo ao crescimento ocular.

Uma meta-análise publicada em Eye & Contact Lens em 2023 (Tang et al.) reuniu ensaios clínicos randomizados e encontrou redução de cerca de 47 a 64% no alongamento axial em comparação a controles, com eficácia variando conforme o tempo de uso e o perfil da criança.5 O uso exige higienização rigorosa e acompanhamento frequente com o oftalmologista.

3. Lentes de contato descartáveis com defocus periférico

Lentes como a MiSight funcionam com um desenho óptico de duplo foco: corrigem a visão central e, ao mesmo tempo, criam uma imagem desfocada na periferia da retina de forma a inibir o crescimento ocular.

O ensaio clínico randomizado de três anos publicado em Optometry and Vision Science em 2019 (Chamberlain et al.) mostrou que crianças entre 8 e 12 anos que usaram MiSight tiveram 59% menos progressão refrativa e 52% menos aumento no comprimento axial em comparação ao grupo controle.3 A MiSight foi a primeira lente de contato aprovada pelo FDA americano para controle de miopia em crianças, em novembro de 2019.

4. Lentes de óculos com tecnologia de defocus

Uma alternativa para crianças menores ou que não se adaptam a lentes de contato são os óculos com tecnologia DIMS (Defocus Incorporated Multiple Segments). O desenho inclui minissegmentos que criam um padrão de defocus periférico enquanto a criança enxerga normalmente pelo centro da lente.

O estudo de seguimento de três anos publicado no British Journal of Ophthalmology em 2022 por Lam et al. mostrou que crianças que continuaram usando DIMS mantiveram o efeito de controle ao longo dos três anos.4 Outras tecnologias similares (como as lentes HAL da Essilor) seguem o mesmo princípio. A evidência é mais recente do que a de atropina e orto-K, mas vem crescendo consistentemente.

5. Tempo ao ar livre

O mais simples e o mais subestimado. A exposição à luz natural de alta intensidade parece ter papel relevante na prevenção do início da miopia em crianças que ainda não são míopes, e em desacelerar levemente a progressão nas que já são.

Uma meta-análise publicada na Ophthalmology em 2012 por Sherwin et al., reunindo estudos com crianças e adolescentes, estimou redução de cerca de 2% no risco de miopia para cada hora adicional por semana ao ar livre.6 A recomendação que vem sendo estudada é de ao menos duas horas por dia. Atenção: o efeito protetor é mais robusto para prevenir o início do que para frear a progressão em quem já tem miopia estabelecida.

Posso combinar tratamentos?

Sim, e essa é uma área de pesquisa ativa. Dados emergentes sugerem que a combinação de atropina com orto-K ou com lentes de defocus pode ter efeito aditivo. Mas a decisão sobre combinar intervenções depende do grau de progressão da criança, da idade, da adesão ao tratamento e de outros fatores que só um oftalmologista pode avaliar adequadamente.

E o custo?

No Brasil, nenhuma dessas intervenções é coberta pela maioria dos planos de saúde, e os custos variam bastante. O colírio de atropina em baixas concentrações é manipulado em farmácias de manipulação (não há versão industrializada aprovada no Brasil nessas concentrações), com custo mensal relativamente acessível. Lentes orto-K e lentes de contato especiais têm custo inicial mais alto, com necessidade de acompanhamento regular. As lentes de óculos DIMS/HAL têm preço acima das lentes convencionais. Cada família precisará considerar custo, adesão e preferência da criança junto com o especialista.

O que óculos comuns não fazem e quando agir

Óculos monofocais convencionais não controlam progressão. Esse ponto vale repetir. Se a miopia da criança está avançando rapidamente (mais de 0,75 dioptria por ano é um sinal de alerta reconhecido), vale discutir com o oftalmologista as opções de controle.

Quanto mais cedo a conversa acontecer, melhor. As intervenções têm maior impacto quando iniciadas antes que a progressão já seja muito acelerada.


Este conteúdo é informativo e não substitui consulta com oftalmologista pediátrico.

Fontes

  1. Low-Concentration Atropine for Myopia Progression (LAMP) Study: A Randomized, Double-Blinded, Placebo-Controlled Trial of 0.05%, 0.025%, and 0.01% Atropine Eye Drops in Myopia Control· paper
  2. Atropine for the Treatment of Childhood Myopia: Safety and Efficacy of 0.5%, 0.1%, and 0.01% Doses (ATOM2)· paper
  3. A 3-year Randomized Clinical Trial of MiSight Lenses for Myopia Control· paper
  4. Myopia control effect of defocus incorporated multiple segments (DIMS) spectacle lens in Chinese children: results of a 3-year follow-up study· paper
  5. Orthokeratology for Slowing Myopia Progression in Children: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials· paper
  6. The association between time spent outdoors and myopia in children and adolescents: a systematic review and meta-analysis· paper

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