A luz vermelha repetida reduziu a progressão da miopia infantil em estudos de até um ano. Uma meta-análise de 2026, com 28 ensaios randomizados e 3.573 participantes, estimou aos 12 meses uma diferença média de 0,68 dioptria no equivalente esférico e 0,30 milímetro a menos de alongamento do olho em relação aos controles1.
O tamanho do efeito chama atenção. A confiança para transportar essa média à rotina brasileira é menor: todos os ensaios, exceto um, foram feitos na China; os aparelhos, comparadores e perfis das crianças variaram; e a heterogeneidade chegou a 97,6% para refração e 97,4% para comprimento axial1.
O tratamento que entrou nos ensaios
Os estudos avaliaram a terapia chamada RLRL, sigla em inglês para luz vermelha de baixo nível repetida. O protocolo mais frequente usou comprimento de onda de 650 ± 10 nanômetros, durante três minutos por sessão, duas vezes ao dia, cinco ou sete dias por semana. A criança olhava para uma fonte luminosa em aparelho dedicado, geralmente de mesa, com os responsáveis acompanhando o uso em casa1.
Um ensaio de centro único randomizou 336 crianças de 6 a 12 anos para esse tratamento ou controle. O dispositivo de cabeça emitia luz de 650 nanômetros, com potência de 0,29 miliwatt entrando na pupila; as sessões duravam três minutos, duas vezes ao dia, todos os dias. Após um ano, o grupo tratado teve mudança de +0,24 dioptria e redução axial de 0,11 milímetro, enquanto o controle avançou −0,65 dioptria e cresceu 0,26 milímetro. As diferenças entre grupos foram 0,89 dioptria e 0,37 milímetro2.
Participantes e famílias sabiam o grupo recebido. O estudo ocorreu em um hospital de Pequim e incluiu crianças com refrações iniciais bastante diferentes. O hospital detinha a patente do aparelho; os autores declararam ausência de conflitos pessoais e informaram financiamento público local2.
Esses parâmetros fazem parte do tratamento estudado. Painéis de fotobiomodulação, lâmpadas vermelhas, máscaras e outros produtos domésticos entregam a luz de outra maneira, com potência, geometria e dose próprias. A eficácia calculada para um dispositivo oftalmológico não sustenta a substituição por uma fonte doméstica12.
A média esconde respostas diferentes
A meta-análise encontrou aos seis meses diferença média de 0,36 dioptria e 0,19 milímetro de comprimento axial. Aos 12 meses, as diferenças cresceram para 0,68 dioptria e 0,30 milímetro. A certeza foi classificada como moderada para refração e espessura da coroide e menor para comprimento axial1.
Esses números combinam ensaios com crianças míopes e pré-míopes, controles com óculos simples e estudos em que a luz foi somada a atropina ou ortoceratologia. Os trabalhos tinham entre 34 e 336 participantes, e o seguimento ficou entre três e 12 meses. O resultado agrupado descreve esse conjunto, sem prever o efeito individual de uma marca ou dose1.
O comportamento após a interrupção também permanece incerto. Em um acompanhamento pós-ensaio, 52 crianças que pararam a terapia tiveram, no segundo ano, alongamento de 0,42 milímetro e progressão de −0,91 dioptria. Entre 41 que usaram apenas óculos simples nos dois anos, os números do segundo ano foram 0,28 milímetro e −0,54 dioptria. Os autores classificaram o achado como rebote modesto3.
Essa comparação perdeu a randomização após o primeiro ano: famílias decidiram continuar, começar ou abandonar o aparelho, apenas 114 das 199 crianças elegíveis entraram na análise e só 11 mantiveram a terapia nos dois anos. O estudo sinaliza rebote; sua intensidade precisa de confirmação. Dois autores eram inventores da tecnologia, e um deles também era diretor e acionista da Eyerising3.
Segurança: sintomas leves e sinais no OCT
Uma revisão de segurança reuniu 20 estudos, 2.380 participantes e 1.436 crianças expostas. O seguimento mediano foi de nove meses e o máximo, 24. Imagem persistente após a sessão foi o sintoma ocular mais comum e desapareceu em até seis minutos nos relatos. Dois artigos descreviam a mesma menina de 12 anos, com queda de visão e alterações retinianas reversíveis quatro meses depois da suspensão4.
A revisão não encontrou perda visual permanente, mas um de seus autores é inventor de patentes relacionadas e diretor e acionista da Eyerising. O conjunto inteiro veio da China e permanece curto para avaliar exposição acumulada na retina4.
Um ensaio posterior acompanhou 86 crianças de 7 a 12 anos por seis meses com um aparelho Eyerising de mesa. Três das 43 crianças tratadas — 7%, com intervalo de confiança de 1% a 15% — desenvolveram uma área transitória de hiper-refletividade na fóvea ao OCT. Elas mantiveram acuidade visual normal; o sinal desapareceu entre meio e três meses após interromper a luz5.
Aos seis meses, porém, apenas 35 tratados e 34 controles completaram o seguimento; a perda de 20% limita a estimativa da frequência desse achado5.
O OCT detectou mudanças que o exame de fundo e a acuidade não mostraram. Os próprios pesquisadores propuseram OCT de rotina durante o tratamento, enquanto estudos maiores e longos definem a frequência e o significado desses achados5.
A situação no Brasil
A lista pública de dispositivos médicos regularizados pela Anvisa é atualizada diariamente. Na versão com dados atualizados em 24 de agosto de 2026, uma busca pelos termos “Eyerising”, pelo fabricante Suzhou Xuanjia e por aparelhos de luz vermelha para controle de miopia não localizou o dispositivo usado nos estudos citados. A busca por nome pode deixar escapar um eventual cadastro sob outra razão social ou denominação comercial; embalagem e fornecedor precisam trazer número verificável6.
O resultado atual apoia uma conversa individual com oftalmologista sobre benefício, alternativas com seguimento mais longo, exame da retina e incertezas regulatórias. Sintoma visual persistente, mancha no centro da visão, piora da acuidade ou imagem residual prolongada pedem suspensão da sessão e avaliação oftalmológica45.
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta. Tratamento de miopia infantil e monitoramento da retina devem ser conduzidos por oftalmologista; fontes luminosas domésticas não reproduzem os protocolos dos ensaios.
