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Cobertura vacinal no Brasil: o que os dados mostram e por que ainda há municípios vulneráveis

O Brasil já foi referência mundial em vacinação. Recuperamos parte do terreno perdido na última década, mas ainda há bolsões de vulnerabilidade que preocupam especialistas, com medidas concretas em andamento para fechar essas lacunas.

Por Dr. Lucca Ortolan Hansen· 30 de abril de 2026· Revisado por Lucca Ortolan Hansen
Risco médio

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Mão enluvada retirando dose de vacina com seringa de frasco
A extração da dose é o gesto central do Programa Nacional de Imunizações, sistema público que oferece mais de 50 imunobiológicos gratuitamente no Brasil. Foto: CDC / Unsplash

Por décadas, o Brasil foi sinônimo de vacinação bem-feita. O Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado em 1973, tornou-se referência global: um sistema público, gratuito e que chegava a todos os cantos de um país continental. Na década de 2000, coberturas acima de 95% em praticamente todas as vacinas infantis eram rotina.

Esse cenário mudou a partir de 2015. Entender o que aconteceu, e o que o sistema está fazendo para recuperar o terreno, é o que este texto propõe.

Onde estamos: o retrato de 2023 a 2026

Os dados mais recentes e sistematizados sobre vacinação infantil no Brasil vêm do Anuário VacinaBR 2025, elaborado pelo Instituto Questão de Ciência (IQC) com apoio da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e do UNICEF, com base em dados públicos do DATASUS e do IBGE.1 O panorama é de recuperação real, mas ainda incompleta.

Em 2023, nenhuma das vacinas infantis do calendário nacional atingiu a meta de 95% de cobertura em todos os estados.1 Esse é o limiar de imunidade de rebanho (a proporção da população que precisa estar imune para que o vírus não encontre caminhos de transmissão suficientes para gerar surtos).

Os números variam por imunizante:

  • Tríplice viral (sarampo, caxumba, rubéola): cobertura da 1ª dose ficou entre 80 e 85% na maior parte do país em 2023. Apenas quatro estados atingiram a meta de 95%: Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Rondônia. A 2ª dose ficou abaixo de 50% em 14 estados, o que compromete esquemas incompletos.1
  • Poliomielite: nenhum estado atingiu 95% em 2023. O Brasil não alcança essa meta desde 2016.1
  • BCG: atingiu a meta em apenas 8 estados; em 11, a cobertura ficou abaixo de 80%, chegando a menos de 58% no Espírito Santo.1
  • Meningocócica C e varicela: nenhum estado atingiu a meta em 2023.1

Dados do Ministério da Saúde de início de 2025 trazem algum alívio: o número de municípios com cobertura acima de 95% para a 2ª dose da tríplice viral cresceu 180%, de 855 para 2.408, entre 2022 e 2024. Para poliomielite, o avanço foi de 93%: de 1.466 para 2.825 municípios.2 Em 2025, a cobertura da 1ª dose da tríplice viral chegou a 92,66% no agregado nacional, com 3.596 municípios acima da meta.3

A tendência é positiva. Mas "tendência positiva" não é o mesmo que "problema resolvido".

Onde estão os bolsões vulneráveis

A heterogeneidade é o ponto que os especialistas mais enfatizam. A média nacional esconde variações dramáticas: municípios vizinhos podem ter um com 100% de cobertura e o próximo abaixo de 50%. Em 2023, apenas 1.784 municípios (menos de 32% do total) atingiram as metas para os quatro imunizantes prioritários: pentavalente, poliomielite, pneumocócica-10 e tríplice viral.1

Por estado, o desempenho diverge. O Ceará teve 59% dos seus municípios atingindo as metas, o melhor resultado nacional. O Acre ficou com apenas 5%.1 Acre, Pará, Amapá e Rio de Janeiro se destacam negativamente em múltiplas vacinas. Surpreende Rio de Janeiro: terceiro maior PIB do país e incapaz de cumprir metas para nenhum dos imunizantes analisados em 2023.

A heterogeneidade vai além dos estados: o gradiente urbano-rural importa, e dentro das grandes cidades há bairros com coberturas muito distintas, associadas a condições socioeconômicas, densidade habitacional e acesso às unidades básicas de saúde (UBS).

Por que a cobertura caiu e não voltou de vez

A queda iniciada em torno de 2015 tem causas múltiplas, e seria um erro simplificá-las em um único fator. Pesquisadores do PNI, Fiocruz e da rede de Atenção Primária identificam ao menos três camadas de causas:

Acesso e conveniência. Horários restritos nas UBS, distância em regiões rurais e calendário vacinal com datas específicas criam barreiras práticas. Para famílias com renda variável e jornada informal, levar um filho ao posto num horário específico tem custo real.4

Calendário e complexidade. O calendário vacinal brasileiro é um dos mais completos do mundo: hoje são 50 imunobiológicos disponíveis pelo SUS. Essa riqueza gera complexidade. Esquemas com múltiplas doses em idades diferentes aumentam a chance de abandono, especialmente para a 2ª e 3ª doses, quando a criança parece saudável.4

Hesitação e desconfiança. Um estudo publicado na revista Saúde e Sociedade em 2024, que ouviu 86 profissionais da Atenção Primária em cinco municípios, identificou cinco determinantes centrais da hesitação vacinal: complacência (percepção de baixo risco quando a doença some do cotidiano), conveniência, confiança abalada, comunicação deficiente e contexto.4 Esse "contexto" inclui influências religiosas, desinformação circulando em redes sociais e, algo inédito no Brasil, discursos de autoridades públicas que descredibilizaram vacinas durante a pandemia de COVID-19.

O mesmo estudo cita dados complementares: uma pesquisa online com 173.178 participantes em janeiro de 2021 mostrou que 11,9% dos pais brasileiros apresentaram hesitação vacinal; outro levantamento em 23 países registrou aumento de 56,3% na hesitação vacinal infantil no Brasil no mesmo ano.4 Esses números são sérios, mas pedem contexto: a maioria dos pais que atrasa vacinas não é "antivacina". É um pai que trabalhou no dia da campanha, ou que não soube que havia uma segunda dose, ou que achou o posto sempre fechado. A hesitação ideológica existe, mas não é a causa dominante do problema.

O que o SUS está fazendo

A resposta do Ministério da Saúde tem sido estruturada desde 2023 em torno de algumas frentes:

Microplanejamento territorial. O Ministério passou a trabalhar com estados e municípios na análise de dados locais (geográficos, demográficos, socioeconômicos) para definir estratégias específicas de alcance em cada território. Em 2023, 3.992 municípios realizaram atividades de vacinação escolar como parte dessas ações coordenadas. O investimento foi de mais de R$ 150 milhões transferidos a estados e municípios para apoiar essas estratégias.2

Multivacinação contínua nas escolas. A escola passou a ser ponto de vacinação regular, não apenas em campanhas anuais. A aproximação com crianças e adolescentes em ambiente familiar ao cotidiano delas aumenta a adesão e reduz a dependência de que a família leve o filho ao posto.6

Campanhas focais. Com a Copa do Mundo 2026 se aproximando (Estados Unidos, Canadá e México como sedes), e diante de surtos ativos nesses países (o Canadá registrou mais de 5.000 casos de sarampo em 2025, os EUA mais de 2.100), o Ministério emitiu alerta em abril de 2026 sobre risco de reintrodução do vírus. Recomenda vacinação de crianças de 6 meses a 11 anos e de adultos até 59 anos antes de viagens, com pelo menos 15 dias de antecedência.3

Integração de sistemas. O SI-PNI (Sistema de Informação do PNI) está sendo integrado ao e-SUS para permitir rastreamento nominal de vacinados, identificar crianças com esquemas atrasados e gerar alertas para agentes comunitários. Essa integração ainda está em curso, mas é estruturante: sem informação individualizada, o microplanejamento é limitado.

Por que isso importa, em números reais

Entre 2008 e 2018, o SUS registrou 457 mil internações por doenças imunopreveníveis, com custo direto de R$ 389 milhões. Influenza respondeu pela maior parcela, seguida de varicela e doença meningocócica.5 Análises econômicas independentes estimam que a inclusão de vacinas no PNI gerou economia de até R$ 280 milhões por ano só em 16 doenças cobertas, e que o custo sem esses imunizantes seria de R$ 710 milhões anuais em internações.5

A imunidade de rebanho não é um conceito abstrato. Quando a cobertura da tríplice viral cai abaixo de 95%, o vírus do sarampo encontra grupos de pessoas suscetíveis suficientes para se propagar. Em 2025, 94,7% dos 38 casos confirmados de sarampo no Brasil ocorreram em pessoas sem histórico vacinal.3 O sarampo pode causar pneumonia, encefalite e morte, e não existe tratamento específico. A única proteção é a vacina.

O que muda na prática

Para o cidadão, a ação mais direta é checar a carteira de vacinação, a própria e a dos filhos. O calendário completo está disponível no site do Ministério da Saúde e nas UBS. Qualquer dose em atraso pode ser atualizada gratuitamente, sem precisar de receita médica ou agendamento em muitos municípios.

Para quem vai às sedes da Copa do Mundo 2026 este ano, o Ministério recomenda checar o esquema vacinal com pelo menos 15 dias de antecedência para a dose de reforço fazer efeito.3

Para o sistema, o desafio é de outra escala: manter investimento no microplanejamento, ampliar o horário das UBS, e garantir que a recuperação dos números de municípios seja sustentada, não apenas uma resposta pontual a uma campanha.

O Brasil construiu um sistema de vacinação admirável em décadas. A evidência mostra que é possível retomar coberturas elevadas, e que o caminho passa por estratégias territoriais precisas, não por campanhas genéricas. Os dados de 2024 e 2025 sugerem que essa direção está sendo tomada. A questão é se o ritmo será suficiente antes que bolsões vulneráveis se tornem surtos.


Este conteúdo é informativo. Para verificar suas próprias vacinas, procure UBS ou unidade de saúde próxima.

Fontes

  1. Anuário VacinaBR 2025: Instituto Questão de Ciência, SBIm, UNICEF· official_data
  2. Ministério da Saúde: Cresce número de municípios com mais de 95% de cobertura vacinal (jan/2025)· ministry
  3. Ministério da Saúde: alerta epidemiológico sobre risco de sarampo pós-Copa 2026 (abr/2026)· ministry
  4. Os motivos da hesitação vacinal no Brasil: análise a partir da percepção dos profissionais de saúde que atuaram na pandemia da COVID-19· paper
  5. Costs related to immunopreventable diseases: Brazil and its geographic areas (2008–2018)· paper
  6. OPAS: Semana de Vacinação nas Américas e importância de ampliar cobertura vacinal no Brasil (abr/2025)· guideline

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