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SUS e Sociedade

Saúde mental dos adolescentes no SUS: o que os dados de 2024-2026 mostram

O Brasil tem 324 CAPS voltados a crianças e adolescentes, mas a cobertura ainda não alcança a maioria dos municípios. A PeNSE 2024 expôs um quadro preocupante: 30% dos estudantes de 13 a 17 anos relatam tristeza persistente. O que o SUS oferece e onde ainda falta.

Por Dr. Lucca Ortolan Hansen· 07 de julho de 2026· Revisado por Lucca Ortolan Hansen
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Material da campanha Janeiro Branco exposto em unidade de saúde municipal de Porto Alegre, RS
Material da campanha Janeiro Branco em unidade de saúde do SUS em Porto Alegre (jan. 2025). A campanha é um dos braços da rede de atenção psicossocial voltados à prevenção e sensibilização. Foto: Cristine Rochol/PMPA (CC BY 4.0)

Em março de 2026, o IBGE divulgou os resultados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), o maior levantamento já feito sobre saúde de adolescentes brasileiros. Os números sobre saúde mental são difíceis de ignorar: 30% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmam se sentir tristes sempre ou na maioria das vezes.3 Entre as meninas, esse percentual chega a 41%.3

O que esses dados mostram, no entanto, não é uma novidade absoluta. Eles confirmam uma tendência que os serviços de saúde já vinham registrando. Segundo levantamento da Associação Paulista de Medicina com dados do DATASUS, entre 2014 e 2024, os atendimentos no SUS por ansiedade na faixa de 10 a 14 anos aumentaram 1.575%; para adolescentes de 15 a 19 anos, o salto foi de mais de 3.300%.6 A demanda cresceu. A rede que deveria receber essa demanda, nem sempre acompanhou.

O que é a RAPS e qual o papel dos CAPS-i

A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) foi criada pela Portaria GM/MS n.º 3.088, de 23 de dezembro de 2011, como o conjunto de serviços do SUS responsável pelo cuidado de pessoas com transtornos mentais e com necessidades relacionadas ao uso de álcool, crack e outras drogas.5 A rede inclui Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Convivência, Serviços Residenciais Terapêuticos, leitos em hospitais gerais, o SAMU 192, as UPAs 24h e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Os CAPS são o componente especializado da RAPS. Para crianças e adolescentes, existem os CAPSi: serviços de atenção diária voltados a pessoas de até 18 anos com transtornos mentais graves e persistentes, como psicoses, autismo severo, anorexia e outros quadros que não se resolvem na atenção primária.2

Em dezembro de 2024, o Ministério da Saúde contabilizava 324 CAPSi ativos em todo o país, dentro de uma rede total de 3.019 CAPS de todos os tipos, número que representou 100,2% da meta estabelecida no Plano Nacional de Saúde para 2024.2

O que os dados revelam sobre a saúde mental dos adolescentes

A PeNSE 2024 entrevistou 118.099 estudantes de 13 a 17 anos em 4.167 escolas públicas e privadas de todo o Brasil, amostra considerada representativa do universo de escolares brasileiros.1 Alguns achados centrais:

  • 30% relatam tristeza persistente (sempre ou na maioria das vezes). Entre meninas: 41%; entre meninos: 16,7%.3
  • 18,5% pensam sempre ou na maioria das vezes que "a vida não vale a pena ser vivida". Entre meninas: 25%; entre meninos: 12%.3
  • 42,9% se sentem irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa. Entre meninas: 58,1%; entre meninos: 27,6%.3
  • Menos de 50% dos estudantes frequentavam escolas com suporte psicológico disponível; apenas 34,1% tinham acesso a profissional de saúde mental na escola.3

Esses números não significam que todos esses adolescentes têm um transtorno mental clinicamente diagnosticável. Sofrimento psíquico e transtorno mental são categorias diferentes: a primeira é mais ampla. Mas eles indicam um volume relevante de jovens em situação de vulnerabilidade emocional sem acesso a suporte adequado.

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) estima que entre 10% e 20% dos adolescentes no mundo vivem com algum problema de saúde mental, e que metade de todas as condições de saúde mental começa aos 14 anos de idade.7 O suicídio é a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos globalmente.7

Por que a cobertura ainda é insuficiente

O número de 324 CAPSi para um país com cerca de 59 milhões de pessoas de 0 a 19 anos levanta uma questão geográfica evidente. Os CAPS em geral, e os CAPSi em particular, se concentram nas capitais e municípios de maior porte. Para um CAPSi ser habilitado, o município precisa ter população suficiente para justificar o serviço (a Portaria 3.088/2011 estabeleceu parâmetros populacionais para cada tipo de CAPS).5

Na prática, isso significa que a maioria dos municípios brasileiros simplesmente não tem CAPSi. Um estudo publicado em fevereiro de 2025 nos Cadernos de Saúde Pública analisou o percurso de famílias com crianças e adolescentes com transtornos mentais em um município do interior sem CAPSij.4 Os achados são representativos de um problema estrutural: famílias que chegavam ao cuidado por encaminhamento de professores, passavam pelas UBSs como ponto de triagem e encaminhamento (não de cuidado efetivo), enfrentavam longas filas para especialistas, e recorriam ao setor privado quando havia recursos para isso.4 A alta rotatividade de profissionais foi apontada como a principal barreira à continuidade do tratamento.4

O problema não é exclusivo dos municípios sem CAPSi. Em janeiro de 2026, o Ministério da Saúde instalou um grupo de trabalho para rever as diretrizes e o custeio da RAPS, com 180 dias para apresentar propostas.5 O CONASS (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) apontou, no processo, fragilidades como a dificuldade dos municípios em financiar a atenção psicossocial, a ausência de arranjos regionais que garantam a continuidade da rede, e o subdimensionamento da saúde mental na atenção primária.5

O que o SUS oferece e onde falta

O SUS tem instrumentos reais para o cuidado em saúde mental de adolescentes. A estrutura que existe funciona em várias frentes:

Atenção primária. As UBSs são o primeiro ponto de contato e deveriam funcionar como base do cuidado em saúde mental leve a moderada, incluindo triagem, acompanhamento e apoio matricial aos profissionais. Na prática, a capacidade real das UBSs nessa função varia muito entre municípios.

CAPSi. Os 324 serviços especializados atendem casos de maior complexidade: transtornos graves, psicoses, autismo severo, situações de crise. Em 2024, 28 novos CAPSi foram habilitados, com previsão de expansão adicional.2

Leitos em hospitais gerais. A RAPS prevê leitos de saúde mental em hospitais gerais para internação de curta permanência em situação de crise, como alternativa ao antigo modelo de internação em manicômio. A disponibilidade desses leitos é desigual entre regiões.

Unidades de Acolhimento infanto-juvenis. Para adolescentes com transtornos relacionados ao uso de drogas em situação de vulnerabilidade social, a RAPS prevê Unidades de Acolhimento específicas para essa faixa. O Ministério da Saúde habilitou 3 novas unidades desse tipo no último ciclo de expansão.2

Onde falta. As lacunas mais visíveis estão na cobertura geográfica (municípios pequenos sem CAPSi), no financiamento municipal (a maior parte do custeio dos CAPS recai sobre estados e municípios, com repasse federal insuficiente segundo o CONASS), na presença da saúde mental na atenção primária e na escassez de profissionais especializados em psiquiatria infantil no setor público.

O que os números de atendimento mostram

O crescimento dos atendimentos por saúde mental no SUS para crianças e adolescentes tem sido consistente nos últimos anos, tendência que se reflete tanto nos dados de ansiedade por faixa etária quanto nos registros ambulatoriais gerais por transtornos mentais e comportamentais.

Esse crescimento pode refletir ao menos duas coisas ao mesmo tempo: mais crianças e adolescentes com sofrimento psíquico chegando ao sistema, e uma rede que, mesmo insuficiente, ampliou sua capacidade de acolhida. Desvincular esses dois fatores é difícil com os dados disponíveis.

O que os dados de fato mostram é que a demanda existe, é crescente, e que parte dela está chegando aos serviços do SUS. O gargalo está na capacidade de absorção, especialmente nos municípios menores, onde a rede começa do zero.

O que muda na prática para quem usa o SUS

Para um adolescente com sinais de sofrimento psíquico (tristeza persistente, alterações de sono, dificuldade de funcionamento nas atividades do dia a dia, pensamentos sobre autolesão), o caminho pelo SUS começa, em geral, pela Unidade Básica de Saúde mais próxima. O médico de família ou clínico geral pode avaliar, oferecer apoio inicial e encaminhar para serviços especializados quando necessário.

Nos municípios com CAPSi, o serviço atende por demanda espontânea, sem necessidade de encaminhamento prévio para situações de crise, e por encaminhamento das UBSs para acompanhamento continuado. O atendimento é gratuito e multiprofissional: psiquiatra, psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional.

Nos municípios sem CAPSi, a maioria do país, o percurso costuma ser mais longo e depende de como cada secretaria municipal organizou seu fluxo. Identificar se o município tem serviço de saúde mental infanto-juvenil estruturado é o primeiro passo.

Quando procurar atendimento urgente: sinais como fala ou comportamento que indiquem ideação suicida, autolesão, episódio psicótico (desconexão da realidade) ou recusa total de alimentação são emergências. Nesses casos, UPAs e prontos-socorros gerais são a porta de entrada; o SAMU (192) pode ser acionado se necessário.


Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Sinais de sofrimento psíquico em adolescentes merecem atenção clínica. Em situação de crise, procure a UPA, o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192 (SAMU). O CVV (Centro de Valorização da Vida) atende 24 horas pelo telefone 188 e em cvv.org.br.

Fontes

  1. IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024· official_data
  2. Ministério da Saúde. Expansão dos serviços de saúde mental ultrapassa meta prevista para 2024· ministry
  3. Agência Brasil. IBGE alerta para quadro preocupante na saúde mental de adolescentes· official_data
  4. Leitão IB et al. Child and adolescent mental health: analysis of therapeutic itineraries in an inner municipality without CAPSij. Cadernos de Saúde Pública, 2025· paper
  5. Agência Brasil. Ministério revisa diretrizes e custeio da rede de saúde mental do SUS· ministry
  6. APM. Ansiedade: de 2014 a 2024, atendimento a crianças de 10 a 14 anos subiu 1.575% no SUS· official_data
  7. OPAS/OMS. Saúde mental dos adolescentes· society

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