Toda vez que um antibiótico deixa de funcionar, o tratamento de uma infecção antes rotineira vira uma aposta. Pneumonias, infecções urinárias, complicações cirúrgicas que a medicina aprendeu a controlar nas últimas décadas voltam a ser perigosas quando as bactérias resistem aos medicamentos disponíveis.
No Brasil, esse cenário não é hipotético. Nas UTIs brasileiras, cepas de Klebsiella pneumoniae resistem ao meropeném em 38,5% das amostras testadas; a Acinetobacter baumannii chega a 81,4% de resistência ao mesmo antibiótico.4 Um gene de resistência chamado NDM, que confere resistência a quase toda a classe dos carbapenêmicos, passou de 4,2% para 23,8% entre as enterobactérias analisadas no país entre 2015 e 2022.3
Contra esse pano de fundo, o Ministério da Saúde publicou em 2026 o PAN-BR 2026-2030: o novo Plano de Ação Nacional de Prevenção e Controle da Resistência aos Antimicrobianos. É o segundo ciclo do plano (o primeiro cobriu 2018-2022). O que muda, o que permanece igual e o que ainda falta?
O que é a resistência antimicrobiana (e por que ela importa tanto)
Resistência antimicrobiana (RAM) é o processo pelo qual bactérias, fungos, vírus e parasitas se adaptam e deixam de responder aos medicamentos que antes os controlavam. O mecanismo é evolutivo: bactérias com mutações que permitem sobreviver a um antibiótico se multiplicam, e aquelas sem essa defesa morrem. O uso excessivo ou incorreto de antibióticos acelera essa seleção.
Globalmente, a OMS estima que a RAM foi diretamente responsável por 1,27 milhão de mortes em 2019 e contribuiu para 4,95 milhões de mortes naquele ano.6 Para o Brasil, estimativas recentes calculam 33.200 mortes diretas e 137.900 mortes associadas à RAM por ano.3
A preocupação com RAM vai além dos hospitais. Como bactérias resistentes circulam entre humanos, animais e meio ambiente, conter a resistência exige ação integrada nos três âmbitos: é o que se chama de abordagem One Health (Uma Só Saúde).
O PAN-BR 2026-2030: o que ele traz de novo
O plano publicado pelo Ministério da Saúde em 2026 é estruturado em torno de cinco eixos estratégicos: conscientização e educação; vigilância e pesquisa; prevenção e controle de infecções; uso racional de antimicrobianos; e acesso a diagnóstico, tratamento e vacinas.1
A principal novidade em relação ao ciclo anterior é a integração formal entre saúde humana, animal e ambiental sob o mesmo plano de ação. O PAN-BR 2018-2022 existia, mas a coordenação entre Ministério da Saúde, Ministério da Agricultura e Ministério do Meio Ambiente funcionava de forma fragmentada. O novo plano inclui formalmente o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, ANVISA, conselhos federais de medicina, farmácia e medicina veterinária, a Fiocruz e instituições de pesquisa e ensino.1
O plano também se alinha com dois marcos internacionais recentes: o Plano de Ação Global da OMS sobre RAM (2015) e o Plano de Ação Conjunto sobre Uma Só Saúde das organizações quadripartites (2022).1 E assume o compromisso firmado na Assembleia Geral da ONU em 2024: reduzir em ao menos 10% as mortes associadas à RAM até 2030.
Para o cidadão, o plano tem consequências práticas em três frentes: vigilância, uso de antibióticos e acesso a diagnóstico. Cada uma merece ser olhada de perto.
Vigilância: onde estamos e para onde vamos
A vigilância epidemiológica de resistência antimicrobiana no Brasil avançou, mas ainda tem alcance limitado. O sistema BR-GLASS, criado a partir da entrada do Brasil no programa GLASS da OMS em 2017, hoje conta com 3.486 hospitais reportando dados de infecções em UTIs à ANVISA.2
Esses dados revelam um panorama preocupante. Na análise piloto do BR-GLASS, 24,5% de todos os isolados testados eram resistentes; entre pacientes hospitalizados, esse número subia para 30,8%.4 A resistência em Acinetobacter baumannii (um dos patógenos mais problemáticos em UTIs brasileiras) chega a 81% a 87% para os principais antibióticos.4 Infecções por bactérias resistentes nas UTIs são um dos cenários em que sistemas de alerta precoce baseados em IA têm recebido atenção crescente.
O problema é que os dados ainda não representam o Brasil todo. O PAN-BR 2026-2030 prevê uma pesquisa nacional de prevalência de RAM para 2025-2026, adaptada da metodologia GLASS, que deve ampliar significativamente o mapa atual da resistência no país.2 Hoje, os dados se concentram em hospitais de referência e capitais, deixando regiões Norte e Centro-Oeste sub-representadas.
Para entender por que essa lacuna importa: sem saber onde e com quais bactérias um paciente vai se infectar, não é possível definir qual antibiótico usar como primeira escolha, e essa definição muda por região.
Automedicação: o elefante na sala
Qualquer plano de controle de RAM no Brasil precisa enfrentar um dado desconfortável: cerca de 33% dos brasileiros usam antibióticos sem prescrição médica, segundo estudo da Sociedade Brasileira de Infectologia divulgado em novembro de 2024.7 Além disso, 55% dos entrevistados não sabiam que o uso incorreto de antibióticos contribui para o desenvolvimento de resistência.7
O consumo de antibióticos no Brasil cresceu cerca de 30% entre 2014 e 2019, e esse crescimento não corresponde a um aumento de infecções bacterianas: corresponde, em grande parte, a uso desnecessário para doenças virais como gripes e resfriados.3 A azitromicina teve pico de vendas durante a pandemia de COVID-19 associado a uso sem evidência, e os especialistas avaliam que esse padrão acelerou a seleção de bactérias resistentes.3
A ANVISA publicou em 2013 a RDC 20/2011 (revisada em 2013), que exige receita para compra de antibióticos. A norma existe, mas a fiscalização é desigual. O PAN-BR coloca o fortalecimento dos Programas de Gerenciamento do Uso de Antimicrobianos (PGUAs) como prioridade, mas em 2019 apenas 47,5% dos hospitais com UTIs haviam implementado esses programas.3
A cobertura vacinal, que é uma das formas mais eficazes de reduzir o uso de antibióticos (menos infecções bacterianas secundárias após vírus = menos antibióticos prescrito), também integra a estratégia. O estado atual da vacinação no Brasil é tratado em detalhes em outro artigo aqui na sossego.health: cobertura vacinal no Brasil. No mesmo sentido, a vacinação contra HPV reduz infecções que frequentemente levam a prescrições desnecessárias de antibióticos. O risco de reintrodução de sarampo via grandes eventos (como o discutido no contexto da Copa do Mundo de 2026) exemplifica como baixa cobertura vacinal amplifica a pressão sobre o sistema de saúde.
O problema invisível: uso de antibióticos na agropecuária
Se o uso humano de antibióticos é o alvo mais visível da política de RAM, o uso veterinário e agrícola é frequentemente esquecido. No Brasil, esse é um ponto crítico.
O Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de proteína animal do mundo. O uso de antimicrobianos na criação de animais é expressivo, e diferente do que ocorre na saúde humana, não existe obrigatoriedade de prescrição veterinária para compra de antibióticos na pecuária em muitos contextos. Bactérias resistentes que surgem em animais podem chegar aos humanos pela cadeia alimentar, pelo contato direto ou pelo ambiente, especialmente pela contaminação de água e solo.
O PAN-BR 2026-2030 inclui formalmente o Ministério da Agricultura e o Conselho Federal de Medicina Veterinária na governança do plano, o que representa um avanço em relação ao ciclo anterior.1 GARDP e DNDi, em declaração de fevereiro de 2026, destacaram a necessidade de "padrões robustos de fabricação" e atenção à contaminação ambiental por antibióticos, uma rota de disseminação de resistência frequentemente ignorada.5
O que ainda falta: três lacunas concretas
O PAN-BR 2026-2030 representa avanço real. Mas três lacunas merecem ser nomeadas:
1. Financiamento explícito. O plano define objetivos e ações, mas não especifica orçamento vinculado. Sem rubrica própria, a implementação fica dependente de dotações anuais que competem com outras prioridades do Ministério da Saúde. Foi o mesmo problema que limitou o ciclo anterior.
2. Capacidade laboratorial regional. A vigilância de RAM depende de laboratórios com capacidade de realizar antibiogramas e identificar genes de resistência. Essa capacidade está concentrada nas regiões Sul e Sudeste. Ampliar o BR-GLASS para ter representatividade nacional exige investimento em infraestrutura laboratorial, especialmente no Norte e Nordeste.2
3. Acesso a antimicrobianos de reserva. Um aspecto menos óbvio da RAM é que, quando uma bactéria resiste aos antibióticos de primeira e segunda linha, as opções seguintes (os chamados antimicrobianos de reserva) frequentemente não estão disponíveis no setor público. GARDP e DNDi apontaram a necessidade de protocolos terapêuticos padronizados para esses medicamentos e de garantir sua disponibilidade no SUS.5 Sem acesso a alternativas de última linha, o resultado é pior para o paciente mesmo quando o diagnóstico foi feito corretamente.
O que isso muda para quem usa o SUS hoje
Para o paciente, a resistência antimicrobiana aparece de forma indireta: no antibiótico que não funcionou, na internação que se prolongou, na infecção hospitalar adquirida durante uma cirurgia de rotina. A boa notícia é que muitas das medidas no PAN-BR são de prevenção. E prevenção, nesse caso, significa menos infecções em primeiro lugar. Na tuberculose, por exemplo, o desenvolvimento de novas vacinas como a M72/AS01E é visto como uma das formas de reduzir a pressão que leva ao surgimento de cepas resistentes.
Para quem acessa o SUS, algumas implicações práticas do plano incluem:
Hospitais com programas de uso racional de antibióticos tendem a ter taxas menores de infecção hospitalar por bactérias resistentes, e o PAN-BR pressiona por universalização desses programas. A pesquisa nacional de prevalência de RAM vai informar quais antibióticos são adequados como primeira escolha por região, potencialmente melhorando a qualidade das prescrições. E o fortalecimento da vigilância cria base de dados para respostas mais rápidas a surtos.
Nada disso acontece rápido. Planos de ação nacionais têm horizonte de cinco anos por razão: mudanças em padrões de resistência e em comportamento de prescrição são lentas. O que o PAN-BR 2026-2030 faz, na melhor das hipóteses, é construir infraestrutura para que o Brasil entre nos próximos dez anos com ferramentas melhores do que as que tem hoje. O contexto mais amplo de mortalidade evitável no Brasil mostra que políticas públicas de saúde de longo prazo produzem resultados reais, mesmo quando lentos.
Quando procurar orientação médica
Resistência antimicrobiana não é algo que o paciente individual precisa "gerenciar" diretamente. Mas há dois comportamentos concretos que fazem diferença na escala coletiva:
Não usar antibiótico sem receita médica, mesmo para infecções que "sempre resolveram" com aquele remédio. E completar o curso de tratamento prescrito, mesmo quando os sintomas melhoram antes do fim. Interromper o antibiótico no meio do tratamento é uma das formas mais comuns de selecionar bactérias resistentes.
Se você tiver infecção grave que não responde ao tratamento inicial, peça ao médico informação sobre cultura e antibiograma (o exame que identifica qual antibiótico ainda funciona para aquela bactéria específica). Não é exagero; é o padrão correto de cuidado para infecções que não evoluem como esperado.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Decisões sobre uso de antibióticos e tratamento de infecções devem ser tomadas com médico ou profissional de saúde habilitado. Nenhum medicamento mencionado aqui deve ser iniciado, alterado ou interrompido sem orientação clínica.
