Um exame de sangue para Alzheimer parece resolver uma angústia antiga: colher uma amostra, receber um “sim” ou “não” e descobrir o futuro antes que a memória falhe. Os testes disponíveis não funcionam assim.
Em maio de 2025, a FDA liberou o primeiro exame de sangue para ajudar no diagnóstico da doença de Alzheimer. O Lumipulse G pTau 217/β-Amyloid 1-42 Plasma Ratio mede no plasma a razão entre duas proteínas relacionadas às alterações cerebrais da doença1. A indicação técnica é para adultos a partir de 50 anos que já apresentam sinais ou sintomas e estão sendo avaliados em cuidado especializado. O exame não foi liberado como rastreamento nem como diagnóstico isolado2.
Ele foi o primeiro, mas já não é o único. Em outubro de 2025, a FDA liberou o Elecsys pTau181 Plasma para a avaliação inicial de pessoas a partir de 55 anos com declínio cognitivo. Nesse teste, um resultado negativo torna a presença de placas amiloides menos provável; um resultado positivo ainda exige investigação adicional. Ele também não serve para rastreamento, diagnóstico isolado ou previsão de demência3.
Esses testes podem reduzir a necessidade de procedimentos mais caros ou invasivos em uma investigação já indicada. Eles não são um check-up para quem está sem queixa.
O que o exame mede
Na doença de Alzheimer, duas alterações biológicas ganharam papel central: o acúmulo de beta-amiloide em placas e as mudanças na proteína tau. O Lumipulse mede p-tau217 e beta-amiloide 1-42 no sangue e calcula uma razão. Essa razão ajuda a estimar se a pessoa tem placas amiloides no cérebro, tomando como referência exames como PET amiloide ou análise do líquido cefalorraquidiano2.
O resultado não vem apenas como positivo ou negativo. A documentação regulatória definiu três faixas:
| Resultado | Interpretação prevista | Próximo passo possível |
| Negativo | Placas amiloides são menos prováveis | Reavaliar outras causas dos sintomas |
| Intermediário | O sangue não resolveu a dúvida | Considerar outro biomarcador e o contexto clínico |
| Positivo | Placas amiloides são mais prováveis | Integrar o resultado à avaliação especializada |
O “positivo” também não equivale sozinho a “esta pessoa tem demência por Alzheimer”. Alterações amiloides podem coexistir com outras causas de perda cognitiva, e o diagnóstico depende da história, do exame clínico, da avaliação cognitiva e, quando indicado, de outros exames.
Quão bem ele funcionou
Na validação multicêntrica publicada em julho de 2026, foram analisadas amostras de 499 adultos sintomáticos a partir de 50 anos, comparadas com uma avaliação de referência para amiloide. O resultado foi positivo em 219 pessoas, negativo em 182 e intermediário em 98. Ou seja, quase uma em cada cinco amostras caiu na zona que não encerra a investigação4.
Dos 219 resultados positivos, 201 coincidiram com a presença de amiloide no exame de referência e 18 não. Dos 182 negativos, 177 coincidiram com a ausência de amiloide e cinco não. Excluída a faixa intermediária, a sensibilidade foi de 97,6%, a especificidade de 90,8%, o valor preditivo positivo de 91,8% e o negativo de 97,3%4.
Esses números são bons, mas não viajam intactos para qualquer população. Valor preditivo depende de quem está sendo testado. Em uma clínica especializada, onde há sintomas objetivos e suspeita razoável de Alzheimer, um positivo tem mais chance de representar doença. Em milhares de pessoas saudáveis fazendo check-up, parte dos positivos representaria alterações biológicas sem demência atual, e a chance de resultados difíceis de interpretar aumentaria.
Há limites importantes: a validação usou amostras congeladas armazenadas de coortes recrutadas em centros especializados e de pesquisa. Vários autores declararam emprego ou relações financeiras com a fabricante do teste. Isso não apaga os resultados, mas reforça a necessidade de confirmar o desempenho no uso cotidiano e em populações diferentes4.
O que dá para concluir: em pessoas sintomáticas avaliadas em centros especializados, o teste teve bom desempenho para estimar a presença ou ausência de amiloide cerebral e pode ajudar a organizar a investigação4.
O que não dá para concluir: o mesmo desempenho justificaria testar pessoas sem sintomas ou prever com precisão quem terá demência, quando isso acontecerá e qual será a velocidade de progressão.
Uma atualização sobre lotes e o registro no Brasil
Em 17 de agosto de 2026, a base da FDA ainda mostrava aberto um recolhimento de classe II de lotes específicos do Lumipulse pTau217/β-Amyloid 1-42 distribuídos nos Estados Unidos. O motivo informado foi a possibilidade de resultados positivos ou intermediários falsamente elevados e de especificidade menor. A orientação de interrupção se aplica aos lotes afetados; ela não equivale à retirada da autorização do método inteiro5. Se um resultado anterior tiver sido produzido com um desses lotes, a revisão deve ser feita com o laboratório e o serviço que pediu o exame.
No Brasil, a base aberta da Anvisa registra a Família Lumipulse G pTau, número 80102513713, como válida desde 17 de agosto de 2026. O registro é recente e não prova que o exame já esteja comercialmente disponível em todo o país. Também não torna intercambiáveis diferentes ensaios de p-tau ou razões com beta-amiloide67. Antes da coleta, confirme o nome exato do teste, a plataforma, o número de registro e a indicação descrita no laudo.
Por que não é rastreamento
Rastreamento é procurar uma doença em pessoas que não apresentam sinais ou sintomas. Para valer a pena, o teste precisa fazer mais do que encontrar uma alteração: é necessário demonstrar que testar aquela população melhora desfechos, com uma sequência clara de confirmação, tratamento e acompanhamento, sem causar mais dano do que benefício.
Os exames autorizados não foram estudados nem liberados para esse uso23. A diretriz da Alzheimer’s Association de 2025 trata biomarcadores sanguíneos como ferramentas para pessoas com comprometimento cognitivo objetivo em serviços especializados. Ela recomenda que testes com desempenho alto possam substituir PET ou líquido cefalorraquidiano em algumas situações, mas apresenta recomendações condicionais, apoiadas por evidência de baixa ou muito baixa certeza7.
A orientação brasileira segue a mesma linha: biomarcadores de Alzheimer devem ser usados em pessoas com sintomas cognitivos e déficits demonstrados objetivamente, quando o resultado puder esclarecer a causa. Não há recomendação de biomarcadores para rastrear pessoas cognitivamente saudáveis8.
Há ainda um custo emocional. Um resultado positivo fora de contexto pode ser entendido como uma sentença inevitável, mesmo quando não informa se ou quando haverá demência. Um resultado negativo pode gerar falsa tranquilidade diante de sintomas causados por outra condição tratável.
Quando a investigação faz sentido
Esquecimentos ocasionais não bastam para pedir um biomarcador. O ponto de partida é perceber mudança persistente em relação ao funcionamento anterior. Alguns exemplos:
- repetir perguntas com frequência e não lembrar da resposta;
- perder-se em lugares conhecidos;
- ter dificuldade nova para lidar com contas, remédios ou tarefas habituais;
- apresentar mudança progressiva de linguagem, julgamento ou personalidade;
- perder autonomia por causa dessas alterações.
Nessa situação, a consulta vem antes do exame. Distúrbios do sono, depressão, perda auditiva, efeitos de medicamentos, deficiência de vitamina B12, alterações da tireoide e outras doenças neurológicas podem produzir sintomas parecidos. O biomarcador responde à pergunta sobre patologia de Alzheimer; ele não substitui a procura por essas alternativas.
O teste muda o tratamento?
Pode mudar para algumas pessoas. Terapias antiamiloide, como o lecanemabe, exigem confirmação da presença de amiloide antes do uso. No Brasil, a Anvisa restringiu a indicação do lecanemabe a fases iniciais da doença e a perfis genéticos específicos9. Um exame sanguíneo confiável pode servir como triagem diagnóstica e, dependendo do desempenho validado e do protocolo local, reduzir a necessidade de PET ou punção lombar7.
Isso não significa que todo resultado positivo leva a um medicamento. Esses tratamentos têm contraindicações, exigem ressonâncias de acompanhamento e podem causar edema ou pequenos sangramentos no cérebro10. No SUS, incorporação e acesso seguem outra discussão, como mostra a avaliação do lecanemabe pela Conitec.
Também é útil separar biomarcador de promessa terapêutica. Um teste pode ficar melhor mesmo quando um tratamento experimental falha. Foi o que ocorreu com os estudos EVOKE de semaglutida em Alzheimer: a biologia medida e o benefício para o paciente são perguntas diferentes.
O que perguntar antes de fazer
Se um laboratório oferecer “exame para Alzheimer”, pergunte:
- Qual biomarcador e qual plataforma serão usados?
- Esse teste foi validado para pessoas com meu perfil e meus sintomas?
- O resultado tem faixa intermediária?
- Quem vai interpretar o laudo junto com a avaliação cognitiva?
- Um resultado positivo ou negativo mudaria qual decisão concreta?
Se não houver uma resposta clara para a última pergunta, provavelmente ainda não há uma boa razão para colher.
O avanço é significativo: uma amostra de sangue pode tornar parte da investigação mais acessível e menos invasiva. Mas a utilidade nasce do contexto. Para quem tem sintomas objetivos e está em avaliação especializada, o exame pode esclarecer. Para quem está bem e quer prever o futuro, ele oferece mais incerteza do que certeza.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Alterações de memória ou de autonomia devem ser avaliadas por profissional de saúde. Não use um exame sanguíneo isolado para diagnosticar ou excluir doença de Alzheimer.
