Uma PrEP com doses programadas a cada seis meses deixou de ser apenas promessa. Em janeiro de 2026, a Anvisa aprovou o lenacapavir para profilaxia pré-exposição, a PrEP, em adultos e adolescentes a partir de 12 anos, com pelo menos 35 kg e risco de adquirir HIV por via sexual1.
A aprovação precisa de uma tradução regulatória: o aval da Anvisa permite que o produto seja comercializado para aquela indicação, mas não inclui automaticamente o medicamento na lista do SUS. Preço, avaliação pela Conitec, negociação, protocolo e compra pública vêm depois.
Em 18 de agosto de 2026, o lenacapavir ainda não integrava a PrEP oferecida de rotina pelo SUS. O processo em andamento na Conitec era de outro medicamento: o cabotegravir bimestral recebeu parecer inicial favorável para seguir à consulta pública em 5 de agosto. Isso ainda não equivale a uma incorporação final67.
O que é o lenacapavir
O lenacapavir é um antirretroviral que interfere em várias etapas do capsídeo do HIV, uma estrutura que protege o material genético do vírus. Na PrEP, ele é aplicado sob a pele e mantém concentrações ativas por cerca de seis meses1.
A Organização Mundial da Saúde passou a recomendar o lenacapavir injetável semestral como opção adicional de PrEP em julho de 2025. A diretriz não propõe substituir todas as alternativas: acrescenta uma escolha para pessoas que preferem ou precisam de um intervalo longo entre as doses2.
Isso importa porque eficácia biológica não é o único desafio da prevenção. Tomar um comprimido todos os dias pode ser difícil por rotina, esquecimento, viagens, falta de privacidade ou receio de estigma. Um esquema semestral reduz o número de ocasiões em que a prevenção pode ser interrompida.
O que os dois estudos mostraram
O primeiro grande resultado veio do PURPOSE 1, realizado com mulheres cisgênero na África do Sul e em Uganda. Entre 2.134 participantes que receberam lenacapavir, não ocorreu nenhuma infecção por HIV durante a análise principal. No mesmo estudo, houve 39 infecções entre 2.136 participantes designadas para emtricitabina/tenofovir alafenamida e 16 entre 1.068 designadas para emtricitabina/tenofovir disoproxil fumarato3.
O PURPOSE 2 ampliou a população para homens cisgênero, pessoas trans e de gênero diverso em vários países, incluindo o Brasil. Na análise modificada, ocorreram duas infecções entre 2.183 participantes que receberam lenacapavir, uma incidência de 0,10 por 100 pessoas-ano. No grupo de PrEP oral, foram nove infecções entre 1.088 participantes, ou 0,93 por 100 pessoas-ano4.
| Estudo | População principal | Resultado com lenacapavir |
| PURPOSE 1 | Mulheres cisgênero | 0 infecções entre 2.134 participantes na análise principal |
| PURPOSE 2 | Homens cisgênero e pessoas de gênero diverso | 2 infecções entre 2.183 participantes na análise modificada |
O que dá para concluir: nos dois ensaios de fase 3, a PrEP semestral teve eficácia muito alta em populações diferentes e superou as taxas de incidência usadas como comparação34.
O que não dá para concluir: nenhuma intervenção tem proteção absoluta em qualquer circunstância. O uso exige testagem regular, aplicações no prazo e um plano para a pessoa que atrasa ou decide interromper.
Reações e o “rastro” do medicamento
As reações mais frequentes ocorreram no local da injeção, com dor, nódulo, endurecimento ou vermelhidão. No PURPOSE 2, 26 participantes do grupo lenacapavir, 1,2%, interromperam o produto por reações locais, contra três, 0,3%, no grupo oral4.
Há também uma característica que exige organização: o medicamento permanece no corpo por muitos meses. Esse “rastro farmacológico” é uma vantagem quando as aplicações estão em dia. Se a pessoa adquire HIV depois de atrasar ou parar, porém, concentrações insuficientes podem favorecer resistência. Por isso, a bula prevê testagem antes de iniciar e antes de cada aplicação, além de uma estratégia alternativa de prevenção quando o esquema é interrompido5.
O lenacapavir usado como PrEP não previne sífilis, gonorreia, clamídia, hepatites ou gravidez. Preservativos continuam úteis, e o acompanhamento inclui testagem e vacinação quando indicada. O raciocínio é parecido com o da vacina contra HPV: uma ferramenta potente cobre um risco específico, não todos os riscos da vida sexual.
A aprovação da Anvisa não abriu a porta do SUS
No Brasil, há etapas diferentes:
- Anvisa: avalia qualidade, segurança e eficácia para autorizar a indicação.
- CMED: define as regras de preço máximo do medicamento.
- Conitec: compara benefício, custo, impacto no orçamento e viabilidade no SUS.
- Ministério da Saúde: decide sobre incorporação e, se houver decisão favorável, organiza protocolo, compra e distribuição.
Quando a Anvisa publicou a nova indicação em janeiro, ainda havia etapa de preço pendente, e a própria agência registrou que disponibilidade no SUS dependeria de avaliação da Conitec e decisão do Ministério da Saúde1.
Isso explica por que “aprovado no Brasil” não quer dizer “disponível no posto”. O mesmo intervalo entre registro e oferta pública aparece em outras tecnologias, como mostra a discussão sobre acesso ao lecanemabe no SUS.
Qual PrEP injetável o SUS está avaliando
Em 5 de agosto de 2026, a Conitec fez a apreciação inicial do cabotegravir para PrEP e recomendou seu envio à consulta pública com parecer favorável. É a tecnologia aplicada a cada dois meses cuja proposta o Ministério da Saúde havia anunciado em julho, não o lenacapavir semestral67.
Esse parecer é uma etapa intermediária. Depois da consulta pública, ainda são necessárias a deliberação final da Conitec e a decisão do Ministério da Saúde antes de qualquer oferta de rotina.
Essa diferença passou despercebida em parte das manchetes porque os dois são chamados de “PrEP injetável de longa duração”. O intervalo resolve a dúvida:
- cabotegravir: aplicação a cada dois meses;
- lenacapavir: aplicação a cada seis meses.
Uma eventual incorporação do cabotegravir não incorpora automaticamente o lenacapavir. Cada produto precisa de avaliação própria de preço, população elegível, capacidade de compra e estratégia de implementação.
O que o SUS oferece hoje
O SUS já oferece PrEP oral, com combinações de tenofovir e emtricitabina, além de testagem, preservativos e profilaxia pós-exposição, a PEP. O protocolo prevê modalidades diária e sob demanda para os grupos elegíveis, sempre com acompanhamento periódico. A indicação parte do risco e da decisão compartilhada, não apenas de pertencer a uma identidade específica8.
Segundo o Ministério da Saúde, 356 mil pessoas já haviam iniciado PrEP oral no país até julho de 20267. Para quem deseja começar agora, esperar uma futura injeção significa permanecer sem uma prevenção já disponível. Uma unidade do SUS pode avaliar a PrEP oral e explicar o acompanhamento.
Quem usa PrEP oral não deve interrompê-la por conta própria na expectativa do lenacapavir. Uma troca, quando e se estiver disponível, precisará preservar a proteção durante a transição.
O que falta para a PrEP semestral chegar
Para o lenacapavir, faltam uma proposta formal de incorporação, preço compatível com compra pública, análise da Conitec e um plano de implementação que garanta testagem e retorno no prazo. O intervalo de seis meses reduz o número de aplicações, mas torna cada dose perdida mais relevante e exige sistemas capazes de lembrar, localizar e acolher quem atrasa1.
Os ensaios mostraram eficácia muito alta da PrEP semestral, e a regulação brasileira reconheceu os resultados. O acesso público, porém, continua sendo uma decisão em aberto.
Até ela ser tomada, a prevenção mais efetiva é aquela que a pessoa consegue acessar e manter agora, com acompanhamento e testagem regular.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação profissional. PrEP deve ser iniciada e acompanhada com testagem para HIV e outras infecções. Se houve uma exposição recente, procure um serviço de saúde o quanto antes para avaliar PEP, que deve ser iniciada em até 72 horas.
