Se você tem diabetes tipo 1, ou cuida de alguém que tem, deve ter visto a notícia nas últimas semanas: a CONITEC, a comissão do Ministério da Saúde que decide quais tecnologias entram na lista paga pelo SUS, recomendou não incorporar o sensor de monitoramento contínuo de glicose em tempo real, o rt-CGM, para pessoas com diabetes tipo 1.
A palavra que importa aqui é preliminar. Essa recomendação ainda não é a decisão final: ela abriu uma consulta pública, que fica no ar até 17 de agosto de 2026, e pode mudar depois que a comissão ler as contribuições enviadas por pacientes, médicos e sociedades médicas1.
Este texto explica o que o rt-CGM muda no dia a dia de quem tem diabetes tipo 1, o que o SUS já cobre hoje, os argumentos dos dois lados dessa recusa, e como participar da consulta pública enquanto ainda dá tempo.
O que o rt-CGM muda no dia a dia
O monitoramento contínuo de glicose em tempo real (rt-CGM) é um sensor pequeno, geralmente colado na parte de trás do braço, que fica sob a pele por cerca de 14 a 15 dias medindo a glicose no líquido que envolve as células. Um transmissor manda essa leitura, de forma automática e contínua, para um aplicativo no celular ou um leitor dedicado, e pode disparar um alarme sonoro quando a glicose está caindo ou subindo demais1.
Essa automação é o que separa o rt-CGM do chamado flash, ou isCGM (sigla em inglês para monitoramento contínuo por escaneamento intermitente). No modelo flash, o sensor também mede a glicose o tempo todo, mas só mostra o resultado quando o paciente aproxima o leitor ou o celular dele, num gesto de escaneamento. Sem esse gesto, não existe alarme automático avisando de uma hipoglicemia enquanto a pessoa dorme, por exemplo. É essa diferença, leitura ativa sob demanda contra leitura automática constante, que fez o flash e o rt-CGM percorrerem processos separados na CONITEC, com um desfecho parecido nos dois casos até agora.
Na prática, o rt-CGM substitui a picada no dedo, a chamada automonitorização da glicemia capilar, na maior parte das medições diárias, embora o próprio fabricante recomende manter o teste tradicional disponível para confirmar leituras fora do padrão1.
Duas recusas em vinte meses
Este não é o primeiro monitor de glicose que a CONITEC barra. Em dezembro de 2024, a comissão já havia decidido, por unanimidade, não incorporar o sistema flash de monitorização da glicose (o antecessor tecnológico do rt-CGM avaliado agora) para pacientes com diabetes tipo 1 e tipo 22.
| Etapa | Flash CGM (2024) | rt-CGM (2026) |
| Parecer preliminar | 132ª Reunião Ordinária, 07 a 09/08/2024, desfavorável por maioria simples | 153ª Reunião Ordinária, 02/07/2026, desfavorável por maioria |
| Consulta pública | CP nº 69/2024, de 07/10 a 29/10/2024: 10.485 contribuições, 99,3% contra a recusa | CP nº 63/2026, de 29/07 a 17/08/2026: em andamento |
| Decisão final | 136ª Reunião Ordinária, 06/12/2024: não incorporar, por unanimidade | Ainda não ocorreu |
Na rodada de 2024, a maioria esmagadora das contribuições foi contra a recusa. Mesmo assim, na reunião final, o comitê manteve a posição inicial2. Vale essa lembrança porque mostra que o volume de manifestações, sozinho, não decidiu o caso da última vez. Pesou mais o argumento técnico: a comissão concluiu que os pacientes já tinham a demanda de monitoramento atendida pelas fitas reagentes do SUS, que os custos do sistema eram altos demais e que os descontos oferecidos pela fabricante, na proposta enviada, eram pequenos diante do preço praticado no mercado2.
O processo do rt-CGM segue o mesmo rito: parecer preliminar, consulta pública, deliberação final e, se aprovado, uma portaria do Ministério da Saúde formalizando a incorporação. É o mesmo rito que está em curso, por exemplo, na avaliação do lecanemabe para Alzheimer, outro caso em que uma tecnologia com benefício clínico reconhecido esbarra no debate sobre custo e escala.
Os números que pesaram contra a incorporação
A Abbott Laboratórios do Brasil pediu à CONITEC a incorporação do rt-CGM, o FreeStyle Libre 2 Plus, aprovado pela Anvisa em fevereiro de 2026, para pacientes com diabetes tipo 1 que, mesmo seguindo o tratamento recomendado, mantêm hemoglobina glicada igual ou maior que 7%1.
Isoladamente, a conta fecha. O tratamento com rt-CGM custa R$ 367.665,22 por paciente ao longo do horizonte analisado, contra R$ 343.600,76 do método tradicional, uma diferença de R$ 24.064,46. Em troca, o paciente ganha em média 1,10 ano de vida com qualidade a mais, na métrica que combina duração e qualidade de vida (o AVAQ, ou ano de vida ajustado pela qualidade). Isso resulta numa razão de custo-utilidade de R$ 21.934,02 por AVAQ, abaixo do limite de R$ 40 mil por AVAQ que o Ministério da Saúde usa como referência para considerar uma tecnologia custo-efetiva1.
O problema, para a CONITEC, não foi o custo por paciente. Foi a escala. A projeção de impacto orçamentário, considerando adoção gradual de 7,3% a 27,8% dos pacientes elegíveis entre 2027 e 2031, aponta R$ 86,4 milhões de gasto adicional já no primeiro ano e R$ 317,4 milhões acumulados em cinco anos; a ata da reunião também registra um desembolso total projetado de R$ 1,48 bilhão no mesmo período1. Some a isso a dificuldade de fechar um critério objetivo de quem teria direito ao sensor, e o resultado foi uma recomendação preliminar desfavorável aprovada por maioria, não por unanimidade1.
O comitê reconheceu o benefício clínico da tecnologia. A discordância não foi sobre se o rt-CGM funciona: foi sobre quanto custa escalar isso para todo o sistema, com que critério de elegibilidade e com que garantia de fornecimento contínuo1.
O que os estudos mostram sobre o rt-CGM
O próprio relatório da CONITEC classifica a certeza da evidência como moderada para controle glicêmico e baixa ou muito baixa para a maioria dos outros desfechos, o que significa que novos estudos ainda podem mudar essas conclusões1.
Dois ensaios clínicos randomizados, publicados na mesma edição da revista JAMA em 2017, ilustram esse padrão. No estudo DIAMOND, 158 adultos com diabetes tipo 1 em uso de múltiplas injeções diárias de insulina foram divididos entre usar rt-CGM ou manter a picada no dedo, por 24 semanas. A hemoglobina glicada caiu 1,0 ponto percentual no grupo com sensor, contra 0,4 ponto no grupo controle, uma diferença de 0,6 ponto (IC95% 0,3 a 0,8; p < 0,001). O tempo por dia com glicose baixa caiu de 80 para 43 minutos3.
No estudo GOLD, com 161 pacientes com diabetes tipo 1 testando os dois métodos em sequência, a hemoglobina glicada terminou em 7,92% com o sensor contra 8,35% com o método convencional, uma diferença de 0,43 ponto (IC95% 0,29 a 0,57; p < 0,001). Os episódios graves de hipoglicemia caíram de 5 para 1 durante o período em que os pacientes usaram o sensor4.
O que dá pra concluir: para quem tem diabetes tipo 1 e mantém controle glicêmico difícil mesmo seguindo o tratamento, o rt-CGM reduz a hemoglobina glicada e o tempo por dia com glicose baixa, com efeito consistente em mais de um ensaio randomizado.
O que NÃO dá pra concluir: que esse benefício se traduz, na mesma proporção, em menos internações ou menos complicações a longo prazo, como retinopatia e doença renal, dentro do sistema público brasileiro especificamente. O próprio relatório da CONITEC não encontrou diferença significativa nesses desfechos, e reconhece que parte dos dados usados na modelagem econômica veio de contextos internacionais adaptados ao Brasil, além de misturar informações de diabetes tipo 1 e tipo 2 pela falta de dados específicos1. Vale registrar ainda que o DIAMOND e o GOLD testaram sensores de outro fabricante, não o FreeStyle Libre 2 Plus avaliado pela CONITEC: o resultado sustenta a categoria rt-CGM, não necessariamente esse produto específico na mesma magnitude.
Por que endocrinologistas discordam da pausa
A reação de parte da comunidade médica foi de frustração. "Após tanto trabalho para a construção do dossiê, discussões, enfim, desanima... especificamente nesse caso agora, com diabetes tipo 1, que tem tantas decisões a serem tomadas no dia a dia", disse a endocrinologista Karla Melo, da Sociedade Brasileira de Diabetes, à imprensa especializada em diabetes5.
O argumento clínico não contesta os números da CONITEC. Contesta a conclusão que se tira deles. Para essa parte da comunidade médica, um benefício já demonstrado, ainda que com evidência de qualidade moderada a baixa em parte dos desfechos, e uma relação custo-utilidade dentro do limite oficial deveriam pesar mais do que a incerteza orçamentária, sobretudo numa doença em que a pessoa toma dezenas de decisões terapêuticas por dia, sozinha, sem supervisão constante. Mais de 50 municípios brasileiros já distribuem sensores de glicose por programas próprios, o que hoje cria uma cobertura desigual dependendo de onde a pessoa mora5.
O que o SUS já garante hoje
O direito a insumo para o controle do diabetes não é novo. A Lei 11.347/2006 garante, gratuitamente pelo SUS, os medicamentos e os materiais necessários à aplicação e à monitoração da glicemia capilar para diabéticos inscritos em programas de educação em diabetes6.
Na prática, isso significa glicosímetro (o aparelho de picada no dedo) e fitas reagentes. O protocolo do Ministério da Saúde recomenda pelo menos três a quatro medições por dia para diabetes tipo 1; para ter direito às insulinas análogas pelo SUS, o paciente precisa comprovar ao menos três medições diárias1.
Esse fornecimento nem sempre é regular. No relato de uma paciente ouvida pela própria CONITEC durante o processo, ela usava cerca de 250 fitas por mês fornecidas pelo posto de saúde, mas frequentemente faltavam fitas e até insulina, o que a obrigava a comprar os insumos do próprio bolso. Depois de trocar para o sensor, sua hemoglobina glicada caiu de 7,9% para 6,1%, e ela deixou de ter internações por hipoglicemia grave, segundo o depoimento registrado no relatório1.
Manter a glicose controlada, seja por qual método for, é o que evita as complicações de longo prazo do diabetes tipo 1, incluindo a perda de visão por retinopatia. O SUS já testa triagem por inteligência artificial para retinopatia diabética em alguns lugares, e quem tem diabetes, de qualquer tipo, deve manter o acompanhamento oftalmológico regular, como este guia explica, independentemente do método de monitoramento da glicose usado. O diabetes tipo 1 também é alvo de outra frente de inovação regulatória no Brasil: o primeiro remédio capaz de atrasar o início da doença foi aprovado pela Anvisa em 2026, ainda que sirva a um grupo bem específico de pessoas, antes do início dos sintomas.
Como participar da Consulta Pública nº 63/2026
A consulta está aberta até 17 de agosto de 2026, no portal Brasil Participativo7. Para contribuir:
- Acesse a página da Consulta Pública Conitec/SCTIE nº 63/2026 em brasilparticipativo.presidencia.gov.br.
- Faça login com uma conta gov.br (é possível criar uma gratuitamente na hora).
- Leia o relatório técnico completo ou o Relatório para a Sociedade nº 735, em linguagem mais simples, disponíveis na própria página1.
- Responda ao formulário com sua opinião, sugestão ou crítica sobre a incorporação.
- Se puder, anexe experiência pessoal, dado clínico ou estudo científico que sustente o que você está dizendo.
O precedente do flash CGM mostra que o volume de manifestações, isolado, não decidiu o caso em 2024. O que tende a pesar numa reversão é argumento técnico específico: dados sobre elegibilidade mais restrita, evidência de redução de internação, ou uma proposta de desconto real por parte da fabricante que reduza o impacto orçamentário projetado.
O que muda a partir daqui
Depois de 17 de agosto, a CONITEC analisa as contribuições recebidas e leva o tema de volta ao comitê, que pode manter, ajustar ou reverter a recomendação preliminar. Se a posição final for outra vez desfavorável, quem tem diabetes tipo 1 continua com direito a glicosímetro e fitas pelo SUS, e ao sensor por conta própria ou por programas municipais isolados. Se for favorável, o Ministério da Saúde publica a portaria de incorporação, e a discussão seguinte passa a ser sobre prazo e critério de acesso.
Enquanto isso, se você tem diabetes tipo 1 e está avaliando com seu endocrinologista se o rt-CGM faz sentido para o seu caso, essa continua sendo uma decisão sua e do seu médico, dentro ou fora do SUS.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual. Decisões sobre monitoramento e tratamento do diabetes tipo 1 devem ser tomadas com endocrinologista. A incorporação de tecnologias no SUS segue processo próprio da CONITEC, sujeito a mudança até a decisão final.
